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O sertão que desafia o céu

por Fonte: Globo Rural Online publicado 12/03/2010 00h00, última modificação 14/03/2019 16h40
A barragem de Mirorós está secando: embora tenha capacidade para 176 milhões de metros cúbicos de água, reúne hoje 31 milhões de metros cúbicos. A situação piorou depois que a Agência Nacional de Águas (ANA) determinou, em outubro de 2009, que a barragem deveria priorizar o consumo humano, forçando a paralisação do perímetro irrigado quando o reservatório atingisse um volume de 20 milhões de metros cúbicos.
No grotão da Bahia, o distrito irrigado de Mirorós endurece contra a seca, ao investir em uma tecnologia de “fazer chover” para evitar que a barragem que o abastece se esgote
 
Texto: Mariana Caetano / Fotos: Ernesto de Souza / Arte e animação: Filipe Borin
 
 
Poucos mapas dão notícia dela. Mas os 95 quilômetros de estrada acidentada, onde se revezam asfalto, terra batida e buracos, logo tratam de apresentar a barragem de Mirorós, para quem tenta chegar até ela a partir do município de Irecê, na Bahia. Encravada no sertão do estado, a quase 600 quilômetros de Salvador, o reservatório - que oficialmente atende por "Barragem Manoel Novaes" - toma de empréstimo o nome do distrito de irrigação que foi criado com sua construção. A situação ruim da via que leva a Mirorós passou muito tempo sendo a prioridade das reivindicações locais. Mas a água - ou a falta dela - urgiu.

O que tem tirado o sono das cerca de 150 famílias que sobrevivem das atividades nos lotes, espalhados por 2,1 mil hectares, é o regime de chuvas, que não tem colaborado para a reposição de água no reservatório nos últimos três anos. Embora a capacidade da represa seja de 176 milhões de metros cúbicos, ela reúne hoje parcos 31 milhões de metros cúbicos.

Localizada às margens do rio Verde, afluente do rio São Francisco, a barragem de Mirorós se estende entre os municípios de Ibipeba e Gentio do Ouro. Construída pela Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), em 1984, tinha como objetivo atender à irrigação e promover a geração de energia. Mas logo passou a ser responsável também pelo abastecimento humano em Irecê, que vivia à base de água salobra, proveniente de poços.
 
O técnico agrícola Laurivan Nunes da Gama foi um dos que se entusiasmaram com o oásis no semiárido: em meados da década de 1990, garantiu dez hectares em Mirorós, onde passou a produzir goiaba e banana prata. Mas a tão sonhada fartura d'água se transformou em pesadelo. "Em setembro de 1999, a barragem sofreu uma grande baixa, mas houve a retomada das chuvas em 2000 e 2001. O estado de tensão voltou depois da escassez de precipitações entre 2008 e 2009", conta Gama.

A situação piorou depois que a Agência Nacional de Águas (ANA) determinou, em outubro de 2009, que a barragem deveria priorizar o consumo humano, forçando a paralisação do perímetro irrigado quando o reservatório atingisse um volume de 20 milhões de metros cúbicos. Estima-se que só há água suficiente para seguir com a irrigação até junho - e o período de chuvas na região, que começou em outubro, termina em abril.
 
Segundo Gama, disputas políticas entre o governo federal e o estadual inibiram a construção de uma adutora que desafogaria a barragem, levando água do São Francisco direto para o abastecimento humano em Irecê. "Nossa necessidade seria de uma obra com vazão de mil litros por segundo, e ficou decidida uma construção de 650 litros por segundo, que não atende nem a demanda atual", diz.
 

 
Texto:Fonte: Globo Rural Online