Você está aqui: Página Inicial > Notícias antigas > O campo a conta-gotas

O campo a conta-gotas

por Fonte: Globo Rural Online publicado 03/03/2010 00h00, última modificação 14/03/2019 16h40
Maior consumidor de água do mundo, o meio rural busca se redimir ao investir em novas ideias e tecnologias que permitam o uso mais racional desse recurso natural.
Maior consumidor de água do mundo, o meio rural busca se redimir ao investir em novas ideias e tecnologias que permitam o uso mais racional desse recurso natural
 
Texto: Mariana Caetano
 
Preocupações ambientais variadas têm rondado tanto a população urbana quanto a rural. Na última década, acentuaram-se as discussões sobre o aquecimento global (com consequências como a elevação do nível dos oceanos e a mudança no regime de chuvas), junto à importância do uso sustentável dos biomas para a conservação de fauna e flora. Em meio a esse intenso debate, o futuro da água ainda carece de atenção. É sabido que o desperdício pode tornar escassa uma das substâncias mais abundantes e necessárias à vida do planeta. Mas é preciso passar da reflexão à ação - e o campo, por sua grande responsabilidade, há de somar boas contribuições.
 
A agricultura é o setor que mais gasta água, no Brasil e no restante do mundo. Do total captado do recurso no país, 1.841 metros cúbicos por segundo, cerca de 47%, ou 865,5 metros cúbicos por segundo, são encaminhados à irrigação. Outros 8% (147,3 metros cúbicos por segundo) são destinados à criação animal, e 2% (ou 36,8 metros cúbicos por segundo) estão ligados ao consumo de água em habitações rurais.
 
Atualmente, o segmento da produção rural que mais utiliza água é a rizicultura. Mas, ainda que mantendo basicamente o mesmo sistema de irrigação nos últimos 30 anos, o arroz deu um salto de racionalidade no uso da água. Nas décadas de 1960 e 1970, eram necessários quase 6 mil litros de água para fazer um quilo do grão. Hoje, essa relação caiu para mil litros de água para cada quilo do produto. "O que proporcionou esse resultado, dentre outras coisas, foi a diminuição do tamanho e da declividade das tabelas [espécie de piscina onde o arroz é plantado] e a utilização de sementes mais produtivas", afirma Antonio Félix Domingues, coordenador de articulação e comunicação da Agência Nacional de Águas (ANA).
 
O avanço da tecnologia de irrigação por pivô central em culturas como café, milho, soja e feijão também proporcionou a redução do consumo de água por estas lavouras. "Antigamente, o pivô lançava a água muito do alto, então boa parte se perdia com o vento e a evaporação. Hoje, isso já está ajustado", conta Domingues.
 
Se hoje o arroz é o cultivo que mais demanda água, no futuro, esse lugar deve ser ocupado pela cana-de-açúcar. O motivo é a evolução do plantio - e da consequente necessidade de irrigação - da cultura no Centro-Oeste brasileiro, especialmente na bacia do Araguaia-Tocantins. "Existe um grande volume de água disponível na região, ao mesmo tempo em que se verifica uma expansão do setor sucroalcooleiro", afirma o coordenador da ANA. Atualmente, o volume de água utilizado pelo setor sucroalcooleiro está em 32 metros cúbicos por segundo; em 2020, a expectativa é que sejam gastos 423,1 metros cúbicos por segundo, um crescimento de mais de 13 vezes.
 
Os canaviais devem puxar a esteira de crescimento da irrigação brasileira, que avança a uma taxa de 5% ao ano no país. Há estudos que apontam que o Brasil possui capacidade para irrigar 29 milhões de hectares, levando em conta áreas que dispõem de água e solo bom, e onde a distância da fonte hídrica ao campo compense o bombeamento. Entretanto, hoje, apenas 4,6 milhões de hectares do país possuem esse sistema. "Assim, o Brasil deve alcançar em 2050 todo o seu potencial de irrigação", diz Domingues. Resta esperar que o setor rural saiba desfrutar de seu potencial da forma mais consciente possível.
 
Na série que se inicia hoje, Globo Rural Online apresenta alternativas para tornar mais eficiente o uso da água no campo. Há iniciativas de pagamento pela utilização do recurso, cultivares resistentes ao stress hídrico, estratégias de irrigação mais eficazes e até tentativas de bombardear nuvens para 'fazer chover' sobre o sertão nordestino. Tudo para que evitar que se chegue à última gota.
Texto:Fonte: Globo Rural Online