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Mananciais pedem socorro

por Fonte: Correio Braziliense publicado 08/06/2010 00h00, última modificação 14/03/2019 16h42
Além de causar danos ambientais irreversíveis, a ocupação desordenada do solo compromete a captação de água para o abastecimento da população. A expansão urbana reduz o volume dos córregos e a poluição da água faz com que o governo tenha que investir muito mais para tratá-la e distribuí-la até a torneira das casas.
Em estudo de mestrado da Universidade de Brasília, pesquisador analisa os níveis de poluição de 11 dos 26 pontos de captação de água utilizados pela Caesb no DF. Cinco córregos estão em situação crítica

# Helena Mader
Além de causar danos ambientais irreversíveis, a ocupação desordenada do solo compromete a captação de água para o abastecimento da população. A expansão urbana reduz o volume dos córregos e a poluição da água faz com que o governo tenha que investir muito mais para tratá-la e distribuí-la até a torneira das casas.
 
A preocupação de ambientalistas é que a qualidade desses mananciais não para de cair. Uma pesquisa do Centro de desenvolvimento sustentável da Universidade de Brasília (UnB) mostra que 45% das microbacias analisadas estão em situação preocupante. Todas elas são usadas como pontos de captação de água pela Companhia de Saneamento Ambiental de Brasília (Caesb).
Durante o estudo de mestrado, 11 córregos foram visitados — uma amostra dos 26 pontos de captação no Distrito Federal. Cinco tinham Índice de Sustentabilidade de bacias hidrográficas (ISBH) abaixo do recomendável. Esse indicador leva em consideração vários aspectos, como a qualidade da água, a situação socioeconômica da região onde está o manancial e as políticas públicas para a manutenção da bacia. Cada um desses fatores recebe nota de 0 a 1 e, ao fim, é calculado o índice.

A poluição não inviabiliza a captação de água para consumo humano, mas torna o tratamento muito caro. Em casos extremos, o uso do recurso hídrico para abastecimento pode até ser descartado. Isso ocorreu com o córrego Currais, em Taguatinga — um dos analisados na pesquisa da UnB. Ele era uma fonte de captação, mas, por conta da degradação, deixou de ser utilizado recentemente.

O córrego Currais recebeu a pior avaliação. Na última análise, feita em 2006, o índice de sustentabilidade ficou em 0,3 — valor duas vezes menor que o apurado no levantamento anterior (realizado em 1995). Para ser classificado como um manancial em boas condições, é preciso apresentar índice de pelo menos 0,6. Os córregos Cachoeirinha, próximo ao Itapoã, Mestre d’Armas e Quinze, em Planaltina, e Barrocão, ao norte de Brazlândia, também apresentaram resultado abaixo do satisfatório (veja mapa).

Autor do estudo, o pesquisador e especialista em desenvolvimento sustentável Fábio Bakker explica que a maior causa da degradação de mananciais no DF é o crescimento urbano desordenado. “Ao contrário do que acontece em outras cidades, onde a atividade industrial é a
principal poluidora, aqui, todos os problemas estão ligados à expansão urbana sem planejamento. O lixo e os dejetos vão parar nas microbacias, o que compromete a captação de água.” O surgimento dos condomínios irregulares está na raiz da destruição das nascentes e córregos.

Além da poluição que é despejada nos mananciais, montes de terra proveniente da erosão do solo causam o assoreamento dos córregos. A redução do volume também prejudica o uso do curso d’água para abastecimento.
Um dos exemplos do impacto negativo é o córrego Cachoeirinha, que fica ao lado do Itapoã. Antes do surgimento da cidade, a água era pura e a Caesb não precisava investir muito para usá-la para o abastecimento.
 
Hoje, a empresa cogita até descartar esse manancial e isso pode ser feito assim que a companhia construir novos locais para captação de água. “No Cachoeirinha, fica claro o impacto do crescimento urbano. De uma década para cá, o índice de sustentabilidade do córrego despencou. E esse período coincide com a explosão demográfica na região”, diz Fábio Bakker.

Controle
Segundo o gerente de Proteção de Mananciais da Caesb, Márcio Niemeyer, a empresa faz controle mensal de todos os pontos de captação de água do DF. Sempre que encontra
irregularidades, a Caesb pede providências ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram) ou à Agência de Fiscalização (Agefis) — que têm poder para multar empreendimentos ou embargar obras.
 
“A situação em Brasília é melhor do que em outros estados porque, aqui, temos um controle rígido. Fazemos um monitoramento do uso do solo para evitar o impacto nos recursos hídricos”, afirma Márcio Niemeyer. “Além disso, partiCIPAMos de projetos de educação ambiental e de recuperação do meio ambiente.”

No DF, cerca de 70% da água para consumo humano é captada no Lago do Descoberto, em Brazlândia, enquanto 20% vêm da bacia de Santa Maria e 10% têm como origem os pequenos mananciais — as chamadas microbacias. Apesar de a participação dos córregos ser pequena na captação total, eles são essenciais porque Brasília enfrenta problemas de abastecimento. Além disso, captar água nessas microbacias fica mais barato do que conduzi-la por longas distâncias.

Além dessas fontes atuais, a Caesb já trabalha para captar água do Lago Paranoá. As obras estão em fase de licenciamento ambiental e a expectativa é o novo empreendimento abastecer cerca de 600 mil pessoas. Assim que o sistema do lago entrar em funcionamento — provavelmente dentro de dois anos —, a Caesb deve desativar alguns pontos de captação onde o custo de despoluição é alto.
COOPERAÇÃO, LIXO E RECICLAGEM
O Governo do Distrito Federal (GDF), o Governo do Estado do Goiás e o governo federal assinaram ontem Protocolo de Intenções do Consórcio Público de Manejos dos Resíduos Sólidos e das Águas Pluviais da Região Integrada de Desenvolvimento (Ride) do DF e Entorno. A solenidade
ocorreu no auditório da Agência Nacional De Águas (ANA). O acordo foi assinado pelo governador do DF, Rogério Rosso, pelo secretário das Cidades do Goiás, Paulo Gonçalves de Castro, e pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. A intenção é iniciar uma cooperação
entre o DF e 20 municípios do Entorno, para a criação de aterros sanitários, a distribuição e o tratamento do lixo e a criação de cooperativas de reciclagem, dentre outras questões. Mas a Câmara Legislativa e as 20 Câmaras Municipais das cidades goianas devem transformar o acordo
em lei. Somente após isso é que os governos poderão fazer os estudos dos projetos. Existe a possibilidade de as ações para a destinação correta do lixo receberem verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

"Ao contrário do que acontece em outras cidades, onde a atividade industrial é a principal poluidora, aqui, todos os problemas estão ligados à expansão urbana sem planejamento” Fábio Bakker, autor da pesquisa
 
Texto:Fonte: Correio Braziliense