Você está aqui: Página Inicial > Notícias antigas > Fonte em Off

Fonte em Off

por Revista Imprensa - Edição de março publicado 01/03/2010 00h00, última modificação 14/03/2019 16h41
A crescente escassez de água no mundo exige do Brasil atenção quanto à preservação de seus recursos hídricos e maior divulgação e fiscalização midiática desse trabalho
A crescente escassez de água no mundo exige do Brasil atenção quanto à preservação de seus recursos hídricos e maior divulgação e fiscalização midiática desse trabalho
 
Por Luiz Gustavo Pacete
Da equipe de Estagiário
 
Entre tantas coisas que têm destacado o Brasil no cenário internacional, algumas são heranças antigas e naturais de eras remotas, anteriores ao homem e à palavra. Quando o assunto é água, por exemplo, as reservas do país equivalem a 12% da disponibilidade de todo o planeta. Num contexto em que o mundo sofre da escassez econômica e física desse recurso natural, é imprescindível informar sobre as reservas brasileiras e conscientizar sobre sua preservação. O Banco Mundial avalia que, até 2030, a demanda global por água vai ultrapassar a oferta em 30%. Conflitos como os que ocorrem no Iêmen, Paquistão, China, Índia, Namíbia e Botsuana serão cada vez mais frequentes. Somam-se ainda ao cenário geopolítico os problemas ambientais: poluição de rios e mares e aquecimento global.
 
Maude Barlow, co-fundadora do Projeto Blue Planet, mostra que é possível amenizar o esgotamento da água por meio da “preservação de bacias hidrográficas e declarando-a como bem público e direito humano”. Mesmo que a posição do país seja privilegiada, Maude alerta que “só é possível manter vivas as reservas disponíveis em solo brasileiro caso seja desenvolvida uma gestão responsável”. A necessidade de conscientização contraria, portanto, a sensação de abundância criada na opinião pública pela cobertura jornalística. “Algumas situações e enfoques dos veículos ultrapassam o conceito de disponibilidade, ainda mais quando as informações técnicas deixam de ser comentadas. Isso cria a percepção de que não temos problemas com a água”, afirma o geólogo e presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), Everton Souza.
 
Eduardo Araia, editor da revista Planeta sustenta a opinião de que a mídia contribui para o processo de preservação quando age com critérios. “Nas matérias recentes de chuva, em São Paulo, o entrevistado falava que, com os reservatórios cheios não corremos riscos de abastecimento nos próximos dois anos. Isso é correto, mas, sem uma abordagem mais abrangente, o leitor pode pensar que estamos com fartura.” Se a abundância existe, não é motivo para comodismo, principalmente pela má distribuição. A Amazônia possui 74% da disponibilidade de água brasileira, mas é habitada por menos de 5% da população. Já em regiões como o Nordeste a disponibilidade é menor que 500 metros cúbicos por ano por habitante – o que já é considerado escassez segundo a ONU, que recomenda um mínimo de mil metros cúbicos. Por isso é grande a polêmica em relação à transposição do rio São Francisco, que alguns consideram a solução dos problemas de abastecimento da região, enquanto outros a veem como um grande desastre ecológico. “Apesar de contarmos com meios de fornecimento significativos, eles não atendem ao país de forma equilibrada. Temos grande quantidade na Bacia Amazônica enquanto a Bacia do Piracicaba, em São Paulo, já chegou ao seu limite. Se uma refinaria quiser se instalar neste local, precisará de grandes intervenções”, afirma o diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu. Uma das soluções que ameniza a dependência é o processo de reuso. Em São Paulo − maior consumidor do país com 2,4 bilhões de litros por dia – grande parte das indústrias já utiliza o serviço. Rodolfo Protti, porta-voz da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), destaca que “99% da água que vai para a estação de tratamento em forma de esgoto é devolvida. As vantagens estão em um destino nobre para um recurso que seria perdido, além da economia de água potável. Algo muito significativo em uma cidade de 20 milhões de habitantes”.
 
Maude lembra que os desafios de crescer economicamente e de forma sustentável devem ser cada vez mais levados em consideração: “O país é um dos maiores consumidores de agrotóxico do mundo e a consequência de uma má utilização pode resultar em rios poluídos e na contaminação das nascentes e águas subterrâneas”. Ela lembra que “a previsão é de que o Brasil passe a exportar 200 bilhões de litros de etanol até 2025. Alarmante, pois para cada litro do combustível serão gastos mais de 1.400 de água”. A ativista ainda alerta para a ameaça de interesses corporativos se movimentarem no sentido de privatizar as fontes do país, que são um bem público.
 
AS MAIORES RESERVAS
 
A Amazônica é a maior bacia fluvial do mundo (veja infográfico nas págs. XX e XX). No Brasil ela atende aos estados do Amazonas, Pará, Amapá, Acre, Roraima, Rondônia e Mato Grosso e é composta por diversos rios, entre eles o Amazonas, Negro e Solimões, com vazão de 133 mil metros cúbicos por segundo. Mas isso não garante fornecimento em todas as cidades da região. Outra questão é a má qualidade da água que chega aos ribeirinhos, devido ao saneamento debilitado e problemas logísticos.
 
A ANA criou um projeto responsável pelo marco legal e técnico de gerenciamento e preservação do Aquífero Guarani, que está sob os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, e ultrapassa as fronteiras nacionais abrangendo Argentina, Paraguai e Uruguai. Neste caso cada estado tem autonomia pela gestão e usufruto do recurso, supervisionado pela ANA. Seu perímetro é equivalente a uma área de 1,2 milhões de quilômetros quadrados e volume estimado de 45 milhões de litros. Perde somente para o aquífero de Nubian, localizado nos territórios da Líbia, Egito, Chade e Sudão, com 2 milhões de quilômetros quadrados. Fernando Oliveira, gerente de águas subterrâneas da ANA, ressalta a viabilidade de exploração de aquíferos: “Diferentemente do rio, em que você precisa de barragens, o custo de tratamento de um aquífero é mais barato e o investimento é fracionado”. Segundo o IBGE, 61% da população brasileira se abastece de água subterrânea. Do ponto de vista internacional ainda não existe, entretanto, legislação que regulamente a exploração da fonte. Cada país tem leis específicas, o que pode favorecer a expropriação e futuros conflitos diplomáticos. Já existe estudo integrado sobre a região financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente para identificar nascentes e focos de poluição do aquífero.
 
NATUREZA EM RISCO
 
O superintendente de gestão hidrometeorológica da ANA, Eurides de Oliveira, afirma que a questão ambiental da Bacia Amazônica é delicada: “O desmatamento é o que causa mais variações e as bacias sofrem muito com isso. As mudanças climáticas também afetam a umidade. A tendência é que existam chuvas cada vez mais fortes e não tão bem distribuídas. A ação humana é difícil de ser contida, pois com grandes áreas desmatadas acontece uma rápida fuga de água doce para o mar”. Além disso, a bacia é responsável por um grande equilíbrio ambiental na região, despejando cerca de 800 milhões de toneladas de sedimentos naturais no mar anualmente. Oliveira acrescenta ainda que as regiões de onde afloram o aquífero são mais vulneráveis, pois não possuem a proteção das rochas. Qualquer ação no solo pode afetar a reserva.
 
Conhecer a região e acompanhá-la é a melhor maneira de preservá-la e utilizá-la. Souza afirma que “a preocupação com os recursos hídricos no Brasil cresceu nos últimos 20 anos, em função de convenções e movimentações dentro do setor governamental, leis e instrumentos que permitem que a gestão dos recursos hídricos seja bem feita”. Ele destaca o Sistema Nacional de Informações de Recursos Hídricos (SNIRH), um grande banco de informações pluviométricas, poços artesianos, evaporação e estudos hidráulicos que podem ser acessados pela comunidade e pela imprensa. Araia, da Planeta, observa que “os veículos especializados sabem da importância desse tema e dão a ele cobertura adequada. O problema maior está na grande imprensa, na qual a luta por espaço coloca o assunto em plano secundário”.
 
Outra questão que Souza destaca como papel da imprensa é que a visão das pessoas deve ser alargada. “A população deve enxergar além da torneira e entender um pouco o processo da água, para que leve em consideração seu papel de preservação.” De acordo com a Sabesp, um brasileiro utiliza cerca de 130 litros diários enquanto o consumo ideal indicado é de 50 litros. Moradores da África subsaariana vivem com até 20 litros diários e cerca de 1,1 bilhão de pessoas no mundo não têm água potável. Além da conscientização, a mídia tem o grande papel de fiscalizar se a legislação está sendo cumprida pelos diversos órgãos espalhados pelo país. “O trabalho dessas instituições deve ser acompanhado, os veículos devem promover matérias que sejam discutidas em nível tanto governamental como social”, reforça Souza. Para Monica Nunes, editora do portal Planeta Sustentável, ainda é necessário produzir informações básicas para que as pessoas se adaptem a essa cultura de preservação. “A conscientização do público sobre a sustentabilidade da vida e do planeta passa pela
conscientização não só do consumo consciente da água, mas de todos os recursos naturais.”
Texto:Revista Imprensa - Edição de março