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Evitar desastres

por Fonte: O Estado de S. Paulo publicado 03/02/2010 23h00, última modificação 14/03/2019 16h39
No período mais crítico desta estação de chuvas - que continuam provocando estragos em várias cidades -, foi grande o risco que pesou sobre os moradores das proximidades das represas da Sabesp que compõem o Sistema Cantareira, do qual depende o abastecimento de água de boa parte da população da Grande São Paulo.

No período mais crítico desta estação de chuvas - que continuam provocando estragos em várias cidades -, foi grande o risco que pesou sobre os moradores das proximidades das represas da Sabesp que compõem o Sistema Cantareira, do qual depende o abastecimento de água de boa parte da população da Grande São Paulo. Duas dessas represas chegaram a transbordar, desabrigando centenas de famílias e causando grandes prejuízos. É preciso pensar desde já no que deve ser feito para corrigir o grave erro cometido ? a permissão ou a tolerância à ocupação dessas áreas de risco ? com a adoção das medidas que se impõem para evitar que desastres graves voltem a acontecer.

Sabe-se agora que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, no início de outubro, elaborou documento advertindo que as fortes chuvas que viriam aumentariam perigosamente os níveis dos reservatórios. O documento, enrolado na burocracia da Agência Nacional de Águas, acabou não chegando à Sabesp, que poderia ter sangrado as represas. Essa providência certamente evitaria riscos de arrombamento das barragens, mas não a inundação dos loteamentos ? o que acabou acontecendo.

Aconteceu o pior, como se previa. Nos 12 municípios mais afetados (Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Capivari, Itatiba, Bragança Paulista, Caieiras, Franco da Rocha, Joanópolis, Nazaré Paulista, Mairiporã, Piracaia e Vargem) vivem 800 mil pessoas, das quais 6 mil estão diretamente ameaçadas pelos alagamentos provocados pelo extravasamento das barragens. A situação é pior em Atibaia, onde desde dezembro 900 famílias - aproximadamente 4 mil pessoas - tiveram de abandonar suas casas situadas em áreas de risco. Essas pessoas tiveram de deixar suas casas às pressas sem saber para onde ir, 15 bairros foram alagados, fábricas e escolas fechadas, houve tentativas de saque, alojamentos superlotados e ameaça de novas inundações, se outras represas também extravasassem.

O sangramento das barragens, como foi o caso das de Atibainha e Cachoeira, revelou-se inócuo, dado o volume de chuvas. "É como se a represa não existisse", diz o superintendente de Produção de Água da Sabesp, Hélio Castro. "A gente não sabe qual será o impacto (do transbordamento), porque não dá para prever quanto de água vai passar pelo vertedouro. Só podemos monitorar. O restante é com a Defesa Civil."

A verdade é que o jogo já estava feito, os dados do desastre lançados, quando as chuvas excepcionalmente fortes deste verão começaram. E a culpa não é delas, como sugerem algumas autoridades. Este é o primeiro ponto a ficar claro, se se quer de fato entender o que está acontecendo. A culpa é dos governos e das Câmaras Municipais das cidades que, nas últimas décadas, fecharam os olhos à instalação irregular de milhares de moradores em áreas de risco, ou então, o que é ainda pior, autorizaram loteamentos ali. Em Atibaia, foram dois grandes loteamentos de classe média.

A existência de um grande número de pessoas de classe média ou alta entre os afetados pelas inundações invalida o argumento, sempre usado em casos de ocupação de áreas de risco, de que é difícil evitar que populações de baixa renda, que não têm para onde ir, nelas se instalem. Salta aos olhos que autorizar loteamentos em áreas de represas é uma temeridade ou uma irresponsabilidade pura e simples, porque não se despreza a possibilidade de chuvas fortes levarem a situações como as vividas neste verão por aqueles municípios.

É desanimador, para não dizer revoltante, constatar que algumas autoridades das quais depende a adoção de medidas para corrigir os erros cometidos estão dispostas a perseverar neles. É o caso do vice-prefeito de Atibaia, Ricardo dos Santos Antônio, para quem "não existe caos. Só 3% ou 4% da cidade está sofrendo com as enchentes. E essa população ribeirinha vai voltar quando a água baixar". Só 3% ou 4% da população da cidade dele representa 4 mil pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas. Tão grave quanto considerar isto pouco, é defender a volta daquelas pessoas para as áreas de risco.

Pessoas que pensam assim não podem participar das corajosas decisões que precisam ser tomadas com urgência para resolver o problema.

EDITORIAL


Texto:Fonte: O Estado de S. Paulo