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Erosões colocam nascentes em risco

por O Popular (GO) publicado 09/08/2010 00h00, última modificação 15/03/2019 09h20
Região do alto araguaia, onde há 21 voçorocas registradas, sofre os efeitos do manejo inadequado do solo, como a arenização
Rogério Borges
 
Monitoramentos organizados pelo Instituto de Estudos Socioambientais da UFG (Iesa) mostram um crescimento assustador de voçorocas na região da alta bacia do Araguaia nas últimas três décadas, onde ficam os dois olhos d’água considerados como as nascentes oficiais do rio. As nascentes, localizadas em Mineiros e na divisa de Goiás com Mato Grosso do Sul, estão expostas a processos erosivos avançados. Até amanhã, O POPULAR publica série de reportagens sobre o Rio Araguaia.
 
Imagens de sátelite revelam que na região há 21 voçorocas de grande porte. "Uma voçoroca tem o poder de matar uma nascente", alerta a professora de Geografia da UFG Selma Simões, que coordena o Laboratório de Geologia e Geografia Física (Labogef), do Iesa.
 
Selma acaba de publicar um dossiê científico no último número da Revista UFG em que faz um apanhado dos estudos sobre o Araguaia realizados pela instituição nos últimos 12 anos. No material, há uma preocupação especial com o problema das voçorocas, enormes erosões que surgem a partir de desmatamentos e progressivo desgaste do solo . Ao atingir o lençol freático, este buraco, após anos da atuação da força das enxurradas, abre um curso d’água ininterrupto e compromete todo o terreno acima. "É como quebrar uma caixa d’água e tudo o que está acima da erosão é rebaixado junto com ela", salienta Selma.
 
As nascentes e as principais fontes que abastecem o Araguaia neste seu trecho inicial concentramse numa área com cerca de 300 quilômetros quadrados. Até o fim dos anos 1970, cerca de 55% da região estavam preservados. Na época, havia duas erosões distantes das nascentes. Em 2003, apenas 20% da vegetação nativa continuava de pé e as voçorocas se multiplicaram por 10. A equipe da professora Selma monitorou uma delas, a voçoroca Paraíso, no córrego Queixada, em Mineiros, por três anos, entre 2000 e 2003, e constatou o ritmo acelerado da degradação. Esses buracos costumam mais que dobrar de tamanho no prazo de 5 anos.
 
"Isso acontece porque há a convergência de fluxos para o pé da erosão. A enxurrada, que desce do declive desmatado, chega rápido ao lençol freático, que está superficial no pé do morro. Isso ocorre, principalmente, em fevereiro e março", aponta Selma. É o que está acontecendo nas duas nascentes do Araguaia. Um processo interligado com a maior exploração econômica daquela região do Estado a partir de 1981, com a introdução da cultura da soja e o incremento da pecuária. O manejo do solo sem as devidas técnicas conservacionistas, aliado ao uso indevido de curvas de nível nas pastagens e à predisposição do solo arenoso para a degradação contribuíram para o aumento das erosões.
 
De acordo com os dados do Iesa, o terreno das nascentes do Araguaia é altamente propenso ao surgimento e à progressão das voçorocas. Como ele foi destituído da proteção natural que a vegetação original propicia va, o aparecimento das erosões era questão de tempo. As pesquisas constataram ainda que a área não é propícia para pastagens e lavouras. Isso pode ser comprovado por outro processo acarretado pelo cultivo sem planejamento: a arenização. De acordo com a professora Selma, são cada vez mais numerosos os bancos de areia na alta bacia do Araguaia. "Não é desertificação, que teria de vir acompanhada de bruscas mudanças climáticas, o que não é o caso."
 
Ela explica que a arenização ocorre quando sedimentos do solo são levados pelas enxurradas mas não chegam ao rio, sendo depositados em áreas mais baixas dos pastos e planícies. Esses locais são definidos como ecologicamente estéreis. "Esse processo vem aumentado, mas ainda não em grandes extensões de terreno, sendo verificado pontualmente." Isso, porém, não deve ser visto com tranquilidade. "Se o atual modelo de exploração econômica na região não for mudado, com a adoção de técnicas de preservação, com o respeito às áreas de conservação, como matas ciliares e as nascentes, teremos mais problemas com voçorocas, assoreamento do rio e arenização."
 
Dois outros relatórios confirmam as conclusões dos pesquisadores do Iesa. A Agência Nacional de Águas (ANA), no plano estratégico elaborado para a preservação e a exploração consciente dos recursos hídricos da bacia do Araguaia-Tocantins, chama a atenção para a ameaça de as áreas de arenização na alta bacia do Araguaia aumentarem. Os técnicos da agências reforçam o coro para a necessidade de adoção de medidas que possam prevenir e conter as voçorocas na região. O Ministério Público de Goiás, por meio de um documento produzido pela Promotoria de Justiça Regional da Bacia Hidrográfica do Rio Araguaia, com sede em Aragarças, faz os mesmos alertas, enfatizando a ocupação irregular de áreas de proteção ambiental.
 
O dossiê do Programa Ambiental de Desenvolvimento Integrado da Bacia do Rio Araguaia, publicado na Revista UFG, aponta quatro propriedades em torno das nascentes que exigem ações emergenciais. No levantamento, as nascentes foram classificadas como áreas em que ainda cabem ações mitigadoras, que englobam providências corretivas do quadro já instalado e preventivas para evitar mais danos. A região começa a desenvolver a cultura da cana-de-açúcar, com projetos de usinas em andamento. "É possível desenvolver a agricultura na região, desde que haja respeito às características do solo", pontua Selma.
 
Importante área de recarga hídrica
 
As nascentes do Araguaia estão em uma área de importante recarga hídrica. A região alimenta e é alimentada pelo Aquífero Guarani e pelo Arenito Botucatu, composições geológicas porosas que armazenam grande quantidade de água, localizados abaixo do lençol freático. Esse depósito também fornece e recebe água das bacias dos Rios Paranaíba e Paraná. Ainda que os níveis pluviométricos da região estejam estáveis, há uma corrente de pesquisadores que alerta para o fato de toda essa água não conseguir mais se infiltrar no solo devidamente e interromper a continuidade do ciclo que mantém vivas as nascentes do rio.
 
O professor Altair Sales, do Instituto do Trópico Sub-Úmido (ITS), da Pontifícia Universidade Católica (PUC) Goiás, acredita na possibilidade de o não abastecimento correto dessas reservas hídricas subterrêneas resultar na morte do Araguaia. "Com a retirada da vegetação natural, a água da chuva corre diretamente para o rio. A água dos arenitos não é reposta." De acordo com ele, esses aquíferos estariam em "situação melindrosa", o que pode ameaçar a perenidade do Araguaia e de alguns de seus afluentes. Haveria, portanto, o risco de o rio se tornar temporário em sua porção inicial ou mesmo secar no começo de seu atual curso. O professor admite que os lençóis freáticos ainda estão em bons níveis de água, mas não se arrisca a dizer até quando.
 
Selma Simões, do Iesa, não acredita que as águas do Araguaia estejam tão comprometidas assim. "A região tem um bom nível de chuvas e são elas que alimentam esses reservatórios naturais", explica Selma. A pesquisadora reconhece que o uso cada vez mais constante e em maior quantidade da água nas lavouras e a menor infiltração da água da chuva em solos compactados diminuem a quantidade de água disponível no subsolo, mas não a ponto de resultar em seu esgotamento total. Uma solução para o problema passa pela reposição da vegetação nos locais mais degradados, o que ajudaria a resolver não só essa questão, como também reduziria o risco de surgimento de voçorocas.
Texto:O Popular (GO)