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Em outubro, Inpe já alertava para 'catástrofe' no Sudeste

por Fonte: O Estado de S. Paulo publicado 02/02/2010 23h00, última modificação 14/03/2019 16h39
O alerta veio quatro meses antes. No início de outubro, antes das chuvas de verão, um documento sigiloso do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontava que o nível dos reservatórios do Sudeste era preocupante, uma vez que chuvas fortes atingiriam a região nas semanas seguintes.

Documento sigiloso recomendava abertura dos reservatórios da região

Rodrigo Brancatelli

O alerta veio quatro meses antes. No início de outubro, antes das chuvas de verão, um documento sigiloso do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontava que o nível dos reservatórios do Sudeste era preocupante, uma vez que chuvas fortes atingiriam a região nas semanas seguintes. O texto do memorando CPT-053/2009 é categórico - "recomenda-se começar a verter as águas desses reservatórios para evitar enchentes catastróficas nos meses de dezembro a março". Com a capacidade de armazenamento esgotada, no entanto, os reservatórios dos Rios Atibaia e Jaguari acabaram de fato transbordando no fim do mês passado, desabrigando e desalojando milhares de pessoas em municípios como Atibaia e Piracaia.

Com o título "Sigiloso - enchentes nas Regiões Sul e Sudeste", o documento obtido pelo Estado é datado de 1º de outubro e assinado por Luiz Augusto Toledo Machado, coordenador-geral substituto do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), que faz parte da estrutura do Inpe. Naquela época, antes da temporada de tormentas, o Sistema Cantareira já registrava 80,3 % de volume armazenado. Machado, que é membro de cinco órgãos internacionais de meteorologia, confirmou ontem à reportagem que o memorando é autêntico e foi endereçado ao diretor do instituto, Gilberto Câmara.

Segundo o próprio protocolo da direção do Inpe, o memorando foi recebido por Câmara no dia 2 de outubro, às 10h58. Pelo trâmite normal, o aviso teria de ser entregue para a Agência Nacional de Águas (Ana) e para o Ministério da Ciência e Tecnologia - que, por sua vez, questionariam a Sabesp sobre o assunto, para eventualmente tomar alguma medida emergencial. "Não tem nada de sigiloso nesse documento que não tenha chegado ao conhecimento dos operadores de energia e operadores de água", afirmou Câmara. "É de responsabilidade da Ana e operadoras tomarem alguma atitude. O que não cabe ao Inpe é ficar divulgando por aí que tal órgão precisa fazer isso ou aquilo, é muito delicado fazer uma recomendação pública, pois o Inpe precisa ter respeito pelos outros órgãos que cuidam do assunto. O Inpe não é gestor de água."

A Agência Nacional De Águas se limitou a confirmar que recebeu a documentação do Inpe em novembro e que desde então monitora atentamente a situação dos reservatórios. Já a Sabesp, responsável por esses sistemas, afirmou por meio de sua Assessoria de Imprensa que não recebeu nenhum alerta do Inpe. Questionada sobre o motivo de não ter vertido as águas dos reservatórios mesmo com a previsão de chuvas, a empresa disse: "A função primordial da represa é o abastecimento. Quando está com os níveis normais, não há por que descarregar a água, sob pena de afetarmos o abastecimento. Somente quando as chuvas se intensificam e o nível da represa ultrapassa o volume operacional é que há necessidade de iniciar o descarregamento. Durante o período de chuvas, é preciso manter um nível de água suficiente para garantir o abastecimento nos meses de estiagem."

A Sabesp ainda afirmou que, "no que se refere à previsibilidade de fenômenos naturais como as chuvas, na média, eles são cíclicos, porém, ao longo do tempo, têm comportamento aleatório, não podendo se afirmar - sem riscos - o comportamento futuro. Assim, a operação realizada foi aquela que representava o menor risco".

COLABOROU RENATO MACHADO



Texto:Fonte: O Estado de S. Paulo