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Brasil tem cerca de 12% das reservas mundiais de água doce do planeta

por O Globo (RJ) publicado 28/12/2010 00h00, última modificação 15/03/2019 09h31
Aproximadamente dois terços da Terra estão cobertos de oceanos de água, mas toda ela, cerca de 97% do total no planeta, é salgada e, portanto, imprópria para o consumo. Restam assim pouco menos de 3% sob a forma de água doce, mas destes mais de 2,5% estão congelados na Antártica, no Ártico e em geleiras, indisponíveis para uso imediato. Por fim, do menos de 0,5% que sobra, grande parte está em aquíferos subterrâneos. Isso faz com que o Brasil, dono de cerca de 12% das reservas de água doce superficial do mundo e de alguns dos maiores destes reservatórios subterrâneos de água líquida, seja considerado por muitos especialistas a 'Arábia Saudita da água'. Mesmo assim, o país deverá manter distância de projetos como o do lago do Alasca, afirmam especialistas. Para eles, o Brasil deve usar de uma forma diferente as enormes vantagens estratégicas que possui em um cenário futuro de escassez global.
RIO - Aproximadamente dois terços da Terra estão cobertos de oceanos de água, mas toda ela, cerca de 97% do total no planeta, é salgada e, portanto, imprópria para o consumo. Restam assim pouco menos de 3% sob a forma de água doce, mas destes mais de 2,5% estão congelados na Antártica, no Ártico e em geleiras, indisponíveis para uso imediato. Por fim, do menos de 0,5% que sobra, grande parte está em aquíferos subterrâneos. Isso faz com que o Brasil, dono de cerca de 12% das reservas de água doce superficial do mundo e de alguns dos maiores destes reservatórios subterrâneos de água líquida, seja considerado por muitos especialistas a "Arábia Saudita da água". Mesmo assim, o país deverá manter distância de projetos como o do lago do Alasca, afirmam especialistas. Para eles, o Brasil deve usar de uma forma diferente as enormes vantagens estratégicas que possui em um cenário futuro de escassez global.

- Já tiramos vantagem do fato de termos água em abundância - diz Antonio Felix Domingues, coordenador de Articulação e Comunicação da Agência Nacional de Águas (ANA). - E vamos poder aproveitar ainda mais essa vantagem estratégica, mas nunca vendendo água bruta.

Opinião parecida tem Paulo Costa, diretor comercial da H2C, consultoria especializada no uso racional do recurso natural.

- Não vejo esse tipo de mercado como premente para o Brasil, assim como não vejo o país apoiando esse comércio nem explorando sua água dessa forma - afirma.

Segundo Felix, atualmente o custo de transporte de um metro cúbico de água (o equivalente a mil litros, pesando uma tonelada) em navios de grande porte para granéis líquidos está em torno de US$ 0,25 a US$ 0,50 por dia. E, como uma viagem para os países sedentos do Oriente Médio leva vários dias, este tipo de comércio de água bruta para abastecimento público a grandes distâncias ainda é inviável.

- É uma conta simples, que depende do valor do produto que você transporta e o meio utilizado - explica. - Mesmo se encontrarmos enormes reservas de ouro na Lua, por exemplo, talvez não compense explorá-las devido ao alto custo do frete. A lei que governa o mundo é a econômica e só louco é que rasga dinheiro. Assim, não acredito que veremos uma comoditização da água, pelo menos no médio prazo, o que talvez seja até uma infelicidade para o Brasil, porque aí seríamos um país "condenado" à riqueza.

Isso não quer dizer, no entanto, que o Brasil já não esteja exportando água de forma indireta. Aproximadamente 70% de toda a água doce consumida no país vão para o setor agrícola, enquanto outros 12% são destinados para o consumo animal e 7% para o setor industrial, que depois vendem sua produção para mercados mundo afora, exportando o que se convencionou chamar de "água virtual".

- A água é uma das grandes riquezas que temos e que já estamos aproveitando de alguma forma - conta Felix. - Para se produzir um quilo de soja é preciso consumir mil quilos de água. E, no Brasil, quase toda a água usada para isso é "verde", isto é, da chuva, e não "azul", de reservatórios, rios etc.

Um cenário bem diferente, por exemplo, do encontrado na China. Enquanto que no Brasil a agricultura irrigada cobre 5 milhões de hectares, na China esta área salta para 66 milhões de hectares.

- Vai chegar um momento que esse número vai bater no teto e a China não vai mais ter água para irrigar suas culturas - avalia Felix. - Para eles, só restará abandonar as áreas onde a produção é ruim e transferir essa água para o uso industrial, que normalmente gera produtos de maior valor que a agricultura para cada metro cúbico utilizado.

Alguns produtos, como grãos, frutas, carnes, aço, papel, açúcar e álcool demandam grandes quantidades de água para serem produzidos e muitos países já encontram dificuldades ambientais para sua produção e, por isso, precisam importá-los de países com água e solo em abundância, como o Brasil - completa.

A mesma linha de raciocínio é defendida por Paulo Costa, da H2C.

- Somos um país com áreas cultiváveis extensas e ainda ociosas, o que já nos coloca em uma posição extremamente estratégica - considera. - O Brasil deve explorar a sua abundância de água na agricultura e na pecuária, até porque a água com um todo não é cara. Devemos agregar o máximo de valor possível a essa grande disponibilidade de água. Assim, podemos usar o recurso de uma forma melhor e com mais lucro.
Texto:O Globo (RJ)