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Balanço das águas

por Fonte: Diário do Nordeste/Opinião publicado 23/03/2010 00h00, última modificação 14/03/2019 16h40
As efemérides já não têm mais tanta força como no passado. Até pela vulgarização do elenco de datas, fatos e acontecimentos arrolados como capazes de justificarcomemorações efusivas.
As efemérides já não têm mais tanta força como no passado. Até pela vulgarização do elenco de datas, fatos e acontecimentos arrolados como capazes de justificar
comemorações efusivas.

Caso emblemático ocorreu ontem, consagrado como Dia Nacional da Água, com pouca motivação para assinalar a sua passagem, apesar da relevância dos recursos hídricos, especialmente numa região sujeita às estiagens prolongadas e sem condições de armazenar, nas camadas subterrâneas, a água das chuvas pela natureza de seus solos rochosos.

O evento serviu, pelo menos, para divulgar a gama de problemas circundantes à questão central da água, como a exclusão de 40 milhões de brasileiros dos sistemas de abastecimento público. Se com a água potável essa é a realidade, o quadro se agrava quando comparado com a falta de esgotos tratados para 100 milhões de pessoas privadas deste serviço público essencial. O binômio água+esgoto representa o primeiro passo para a garantia da saúde pública.

Essa questão assume ares de gravidade por transcender os limites meramente nacionais. Em termos mundiais, a exclusão dos serviços imprescindíveis de saneamento alcança 2,6 bilhões de pessoas. As consequências se fazem sentir na poluição hídrica, com a contaminação das águas
pelos elementos poluidores carreados "in natura" para o leito dos riachos, rios, lagos, lagoas e outros reservatórios naturais.
Estudo promovido pela Agência Nacional De Águas (ANA) arrolou Fortaleza entre as principais bacias impactadas pelos esgotos de cidades de grande e médio portes, provocando problemas de poluição. Nas regiões metropolitanas estão afetadas também São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Vitória, Recife, Salvador, Belém e Manaus. O quadro se agrava, mais ainda, com a inclusão de João Pessoa, Campinas, Montes Claros, Cascavel, Mogi-Mirim, Juiz de Fora, São José do Rio Preto e Presidente Prudente.

A poluição hídrica afeta, em maior escala, a população infantil. No âmbito mundial, 4.200 bebês morrem diariamente contaminados pela água poluída. Na América Latina, são 100 mortes diárias, provocadas pela diarreia, cólera, dengue, esquistossomose e outras enfermidades oportunistas. No
Brasil, o lançamento de esgotos domésticos, sem quaisquer tratamentos, representa o maior fator de poluição dos corpos d´água. Isso porque apenas 48%dos domicílios do País possuem rede de coleta, enquanto 21% recorrem às fossas sépticas.

Este é um grande problema por comprometer a qualidade da água em todas as regiões. A sua erradicação dependerá da universalização do saneamento, ao custo estimado em R$ 260 bilhões. Entre 2007 e 2010, os recursos aplicados em saneamento básico, por intermédio do Programa de
Aceleração do Crescimento, somam R$ 12 bilhões, bem longe, portanto, de alcançar a meta ideal.

Enquanto a ação política não deslancha em ritmo de eliminar a defasagem gerada pela ausência de investimentos, a degradação dos recursos hídricos irá continuar. A educação ambiental desabrocha como uma tecnologia para conscientizar usuários e governantes sobre essa riqueza
finita.
Texto:Fonte: Diário do Nordeste/Opinião