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ANA questiona represamento de água

por Fonte: Correio Popular publicado 27/01/2010 23h00, última modificação 14/03/2019 16h39
O diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, considerou inapropriada a opção da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) de armazenar água em dezembro quando as represas já estavam próximas da capacidade máxima.

Presidente da entidade diz que foi ‘inapropriado’ manter Cantareira no limite em dezembro

Fernanda Nogueira de Souza
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
fernanda.souza@rac.com.br

O diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, considerou inapropriada a opção da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) de armazenar água em dezembro quando as represas já estavam próximas da capacidade máxima.

As razões que levaram a operadora do sistema a tomar essa decisão — que culminou no transbordamento de duas represas e no alagamento de cidades ao longo dos Rio Atibaia e Jaguari — serão discutidas em reunião na Agência amanhã com representantes da Sabesp, do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e da Secretaria de Estado de Saneamento e Energia. Segundo Guillo, a ANA pedirá um detalhamento dos critérios usados pela Sabesp para escolher esse tipo de operação, do cenário com que a operadora trabalha para os próximos meses e quais são os planos de contingência para lidar com esses possíveis cenários.

“Essa opção tirou as condições de manobra do sistema, que operou próximo do limite máximo”, disse Guillo.

De acordo com o diretor-presidente da ANA, embora a agência considere que o Estado de São Paulo tem condições para operar o sistema hídrico, serão oferecidos técnicos da entidade para ajudar com informações, como previsões meteorológicas.

“Vamos buscar um entendimento para fazer uma ação conjunta e diminuir os danos”, afirmou Guillo.

Os questionamentos surgiram após o transbordamento dos reservatórios Jacareí/Jaguari e Atibainha, de um total de quatro que compõem o sistema de produção de água Cantareira, que causou inundações em várias cidades, como Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Pedreira e Amparo.

Outro reservatório do sistema, o Cachoeira, está com 95% da capacidade e a situação geral do Cantareira é de 99,4% de capacidade.

É a primeira vez que a represa Jacareí/Jaguari, a maior do Sistema Cantareira, com vazão de 22 mil litros de água por segundo, atinge o limite máximo.

Um dos municípios mais atingidos foi Atibaia, que teve 15 bairros tomados pela água. Ao menos 900 famílias (3.600 pessoas) foram afetadas, o equivalente a 2% dos 130 mil habitantes. De acordo com a Prefeitura, 65 pessoas estão desabrigadas e 150 desalojadas. Em ao menos dois dos bairros inundados, Parque das Nações e Kalimar, moradores tiveram que usar barcos ontem para tirar seus pertences de casa.

O professor Fernando Luis Camargo de Araújo, de 44 anos, mora no Parque das Nações há oito anos e nunca havia sofrido com inundações. “Pegamos um barco emprestado para tirar as coisas de casa”, disse. No Kalimar, o agricultor Benjamin Kordo, de 49 anos, usava bombas para retirar a água de dentro de casa. A dona de casa Lucimara de Moura, de 34 anos, perdeu móveis e eletrodomésticos. “A água está na altura da cintura na minha casa”, afirmou.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Atibaia, Paulo Catta Preta, é impossível saber qual bairros da cidade serão afetados, porque diferente do que fez para cidades como Bom Jesus dos Perdões e Nazaré Paulista, a Sabesp não fez qualquer estudo para dizer qual será a mancha de inundação.

O prefeito de Bom Jesus dos Perdões, Carlos Riginik Júnior (PSDB), disse que até dezembro a Sabesp afirmava à Prefeitura que a situação nas represas estava tranquila. Em meados de dezembro, a situação mudou.

“Disseram que haveria problemas. Fomos avisados três dias antes de que a água ia extravasar”, afirmou.

A cidade está com vários bairros alagados e tem ao menos 300 desabrigados. O prefeito foi a São Paulo ontem para tentar conseguir recursos para a reconstrução da cidade. “Precisamos de pelo menos R$ 5 milhões.”

PCJ alertou autoridades sobre risco de transbordamento

A Câmara Técnica de Monitoramento Hidrológico do Comitê PCJ, das bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí e Piracicaba e Jaguari, alertou a Sabesp entre setembro e outubro do ano passado sobre a possibilidade de transbordamento dos reservatórios do Sistema Cantareira. De acordo com o coordenador, Astor Dias de Andrade, a Câmara recomendou à operadora que iniciasse as descargas de água naquela época, o que foi ignorado pela Sabesp. “Eles optaram por seguir as regras estabelecidas pelos próprios técnicos”, afirmou Andrade.

Em outubro, a Câmara encaminhou uma nota técnica à Agência Nacional de Águas (ANA) e ao Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) para informar sobre a situação. Depois disso, em dezembro, a Agência e o Departamento enviaram uma nota à Sabesp de que o limite máximo de 100% deveria diminuir para 90%. A Sabesp começou a deixar a água extravasar das represas em 17 de dezembro. Assim como a ANA, a Câmara Técnica também já se preocupava no final do ano passado com as chuvas de dezembro, janeiro e fevereiro. “A Câmara esperava um Verão muito chuvoso”, afirmou Andrade. Segundo o coordenador, uma ação da Sabesp antes de dezembro teria atenuado as inundações nas regiões de Campinas e Atibaia, apesar de o maior problema hoje ser a grande quantidade de chuvas. (FNS/AAN)

Situação era ‘normal’, diz Sabesp

Comportas foram abertas somente quando volume passava dos 90%

O engenheiro da Sabesp Carlos Roberto Dardeif disse, em entrevista coletiva ontem em Atibaia, que a situação das represas em dezembro, próximas do limite máximo de capacidade, estava “dentro da normalidade”. A operadora começou a abrir as comportas dos reservatórios no dia 17 de dezembro, quando o nível passou de 90% de capacidade. “Em dezembro, choveu por volta de 200 milímetros e este mês choveu 400 milímetros”, afirmou, ao sustentar que a principal causa das inundações são as chuvas intensas.

Questionado sobre as previsões meteorológicas feitas em dezembro, que esperavam muita chuva em janeiro, Dardis afirmou que eram apenas previsões, “que não têm precisão”. “A Sabesp opera o sistema da mesma forma desde a década de 1970”, afirmou. De acordo com Dardeif, com a chegada das represas Atibainha e Jacareí/Jaguari ao limite máximo de capacidade, não há como prever quanta água passará pelos vertedouros nos próximos dias. “As precipitações irão dizer qual volume de água passará pelo vertedouro”, afirmou. No entanto, descartou a possibilidade da subida rápida da água nos locais atingidos. “Não há risco de grandes ondas. Os reservatórios têm capacidade para amortecer a entrada de água. O nível poderá subir aos poucos, dependendo da quantidade”, afirmou.

Sobre o plano de mancha de inundação para Atibaia, que poderia minimizar os danos na cidade com simulações de possíveis alagamentos em mais bairros, Dardeif afirmou que o DAEE solicitou que o estudo fosse feito apenas para Perdões e Nazaré, e não para Atibaia. “Agora, faremos um plano, mas ele chegará tarde”, admitiu. (FNS/AAN)

Meteorologistas recomendam atenção até março

Temporais devem continuar, mas dão trégua na região de amanhã a domingo

As fortes chuvas devem dar uma trégua às regiões de Campinas e Atibaia entre amanhã e domingo e o sol entre nuvens deverá predominar, segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec/Inpe). Hoje, ainda há possibilidade de pancadas de chuvas fortes isoladas. “Entre amanhã e domingo, a intensidade das chuvas na região diminui, porque a área de umidade que atua no Estado de São Paulo ficará sobre as regiões Sul e Oeste”, disse o meteorologista Vlamir da Silva Júnior. Atibaia tem chance de ficar com tempo mais seco do que Campinas no final de semana.

De acordo com o pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Hilton Silveira Pinto, existe a possibilidade de chuvas fortes ainda em fevereiro. “Janeiro e fevereiro são os meses mais chuvosos. Em março, a chuva começa a diminuir.” De acordo com o pesquisador, é cedo para dizer como ficará a situação em março. O total de chuvas acumulado na estação meteorológica da Unicamp é de 258,5 milímetros em 22 dias e a média do mês de janeiro é de 280,3 milímetros. O ano passado foi o mais chuvoso em 21 anos de medições feitas pelo Cepagri.

Segundo meteorologistas, a explicação mais plausível para o excesso de chuvas neste Verão em Campinas e no Sudeste em geral é que a região está sob a ação do El Niño, que aquece as águas do Oceano Pacífico equatorial e aumenta as chuvas na região Centro-Sul do Brasil, e por outro fenômeno, conhecido como Alta da Bolívia, uma corrente de ar que desloca a umidade da Amazônia para as regiões central e Sudeste do País. (FNS/AAN)




Texto:Fonte: Correio Popular