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Água doce e mais barata

por Época Negócios publicado 03/02/2010 23h00, última modificação 14/03/2019 16h40
Uma start up canadense criou um sistema inovador de dessalinização que gasta 80% menos energia e pode ser uma saída para amenizar a temida escassez de água
12% da água doce do mundo está no Brasil. Fonte: ANA

Uma start up canadense criou um sistema inovador de dessalinização que gasta 80% menos energia e pode ser uma saída para amenizar a temida escassez de água

Por Karla Spotorno

Não importa o lugar. Quando uma ideia é realmente boa, o inventor pode materializá-la até na sala de estar de sua casa. Foi o que fez Ben Sparrow, um jovem engenheiro mecânico inglês que criou um sistema de purificação de água mais eficiente que formas convencionais de dessalinização. A
tecnologia desenvolvida por Sparrow não necessita de muita energia elétrica, o principal problema dos métodos usados mundialmente para retirar o sal e outros elementos da água.

A eletricidade é usada apenas para bombear a água. No restante do processo, utiliza-se da energia gerada pelo sol.

“Nossa proposta termoiônica requer 80% menos energia elétrica e mecânica”, afirma Sparrow, um inventor de 33 anos que levou seis para desenvolver a tecnologia, construir o protótipo e realizar um projeto-piloto já reconhecido pela comunidade científica. Uma ironia da invenção: Sparrow optou pela energia solar, apesar de morar em Vancouver, uma cidade canadense com temperatura média entre 6,5ºC e 13,7ºC ao longo do ano e que, por cinco meses, tem poucas horas de sol por dia.

O surpreendente no sistema de conversão de energia termoiônica criado pelo canadense é a sua simplicidade. Utilizando conceitos básicos de física e química, ele aproveita as próprias características da água salgada para transformá-la em doce. A invenção parte do princípio de que o sal é formado por dois elementos de cargas opostas: o cloro, negativo, e o sódio, positivo.

Sparrow criou uma espécie de circuito elétrico que atrai os íons positivos para um lado e os negativos para outro, retirando, assim, o cloreto de sódio da água.

O ciclo começa com uma bomba que capta a água salgada – seja ela do mar ou de um poço – e a armazena numa espécie de piscina rasa com o fundo pintado de preto. Nesse reservatório a céu aberto, a água é borrifada, para que se acelere a evaporação pelo calor do sol e pela atmosfera árida. O resultado é um líquido bastante concentrado em sal, chegando a ter cerca de 20% de cloreto de sódio, no lugar dos 3,5% do nível normal. Na segunda etapa do processo, bombas de baixa pressão são usadas para transportar essa água salgada para dentro do equipamento de dessalinização que, no projeto-piloto, tem o tamanho de um forno de micro-ondas.

No dessalinizador, dutos de poliestireno conectam dois fluxos de água salgada ao líquido concentrado em sal, e ele passa a funcionar como uma espécie de bateria. Por ter sido quimicamente tratado, cada duto atrai um tipo de elemento: um deles puxa o sódio (íons positivos) e o outro, o cloro (íons negativos). O resultado disso são dois fluxos que retiram o sódio e o cloro do quarto fluxo de água. O resultado? Esse quarto fluxo transforma-se em um líquido livre de cloreto de sódio. “Para ser consumida, essa água requer apenas um tratamento à base de cloro ou ultravioleta”, afirma Sparrow.

A maior vantagem da invenção está na possibilidade de baratear em até 80% o custo operacional da transformação da água imprópria para o consumo em água potável. Isso acontece, em primeiro lugar, pela redução no gasto de energia elétrica. Além disso, o método necessita de bombas de baixa pressão, o que permite a utilização de tanques e dutos de plástico, material não corrosivo, leve e mais barato. Na osmose inversa, técnica utilizada mundialmente, inclusive no Brasil, são necessárias bombas de alta pressão, que exigem tanques e dutos construídos em aço, mais caros.

Para lançar comercialmente o sistema que criou, Sparrow se associou a Joshua Zoshi, ex-colega no MBA da universidade canadense Simon Fraser, e montou a Saltworks, em 2008. Já no primeiro ano de vida, a empresa ganhou um prêmio de sustentabilidade do estado canadense de British Columbia e teve o projeto testado e aprovado pelo Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá e pela Hydro’s Powertech Labs, companhia canadense fornecedora de soluções com energia limpa.

Além disso, a start up de Sparrow conseguiu parceiros públicos e privados para patrocinar alguns de seus projetos, inclusive a construção de uma pequena planta-piloto com capacidade para dessalinizar mil litros de água por dia.

Segundo os fundadores da Saltworks, a invenção pode ser implementada em locais com climas áridos, como certas regiões da África, da Austrália, do Oriente Médio e em partes das Américas do Norte e do Sul, Brasil incluído.

O potencial de negócios da dessalinização é grande. Segundo a publicação especializada Global Water Intelligence (GWI), o mercado mundial cresce 9,5% ao ano. A GWI estima que o investimento nessa técnica chegará a US$ 56 bilhões em 2015 e que, nos próximos dez anos, o número de unidades de dessalinização dobrará, chegando a 26 mil no mundo.

O surgimento de métodos alternativos e mais econômicos de dessalinização é bem-vindo, pois ajuda a estancar um problema que cresce de forma acelerada. Segundo as estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,1 bilhão de pessoas não dispõem de água potável hoje no mundo. Caso nada seja feito, em 2025 esse número chegará a 1,8 bilhão, o que significa um incrível aumento de 60%.

Dados da OMS mostram que morrem no mundo cerca de 1,6 milhão de pessoas todos os anos em razão de problemas de saúde decorrentes da falta de água potável.

A escassez também coloca em risco a produção de alimentos no planeta. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), 70% da água de superfície e subterrânea é direcionada para a agricultura. Ou seja, uma redução mínima no volume destinado à irrigação afetará a produção, que terá de se adaptar à escassez nos próximos anos. A situação é tão grave que cientistas estudam uma forma de aproveitar a água congelada dos polos para abastecer regiões mais problemáticas.

Por ainda não ter a patente da invenção, os sócios da Saltworks guardam alguns segredos e deixam sem resposta questões técnicas. Para o professor Kepler Borges França, titular do Laboratório de Dessalinização da Universidade Federal de Campina Grande (PB), uma dúvida está relacionada à manutenção preventiva. “Essa questão é importante por tratar dos custos permanentes e influenciar a sustentabilidade do sistema”, diz.

Sparrow defende que o método é simples e que, apesar de estar sendo testado em uma planta pequena, pode ser adaptado para grandes volumes. Mas diz que só o uso em escala revelará ajustes necessários. Mesmo os pesquisadores que têm dúvidas já torcem pelo projeto. Afinal, quem sairá ganhando, além de seus inventores, serão milhões de pessoas em todo o mundo.

Fonte: Época Negócios


Texto:Época Negócios