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:: Pau-rosa, um doce aroma que pode morrer
O Estado de São Paulo, 14 de julho de 2002

Por: HERTON ESCOBAR

Se na pele das mulheres a fragrância do Chanel N.º 5 inspira desejo e elegância, no caboclo da Amazônia cheira a suor e cachaça. A história do perfume mais famoso do mundo, imortalizado por ser a única coisa que Marilyn Monroe "vestia" para dormir, começa nas entranhas da selva amazônica, bem longe do glamour das boutiques, bolsas e pescoços decorados por jóias. No mato, caboclos malvestidos e malpagos precisam ir cada vez mais longe, se embrenhar sempre mais para encontrar o pau-rosa, do qual extraem um dos principais ingredientes do perfume. A árvore foi tão explorada nas últimas décadas que está ameaçada de extinção, pondo em risco a sobrevivência da espécie e da própria indústria.

Os "pau-roseiros", como são conhecidos, chegam a passar três meses na floresta, vestindo apenas um par de Havaianas, calção e camiseta, para conseguir a madeira. Nada de motosserra ou trator. As toras são cortadas no serrote e carregadas nas costas, amarradas a uma mochila de cipó chamada jimanchi. A alimentação é à base de caça, principalmente macaco, veado e porco cozido.

Quem relata é o repórter fotográfico Pedro Martinelli, que acompanhou uma dessas expedições na região do Rio Nhamundá, divisa do Amazonas com o Pará.

A aventura começou em Parintins, onde ele foi fotografar a Festa do Boi, em 1995. "Senti um cheiro forte, perfumado, e fui atrás. Acabei chegando a uma usininha de pau-rosa", conta. Na fabriqueta, a madeira é moída, colocada em uma caldeira com vapor injetado e fervida por 12 horas. "É como uma panela de pressão. O óleo sobe para a superfície e é separado da água."

Das usinas, o óleo segue para Manaus, de onde é despachado para o exterior, a US$ 40 o quilo. Algum tempo depois, retorna ao Brasil a preço de ouro, misturado a fórmulas secretas de perfumes de luxo. Um vidro grande de Chanel N.º 5 chega a custar US$ 145. "Quando a mulher passa o perfume, não tem idéia do que está por trás desse gesto", afirma Martinelli. De Parintins, ele seguiu com uma dúzia de caboclos para o norte, pelo Nhamundá. Foram quatro horas de barco até a entrada de um igarapé e outras oito horas de jangada, empurrada com vara, até a boca do ramal, uma trilha aberta na mata para escoar a madeira. O ramal dá acesso a uma série de picadas que levam às árvores, identificadas previamente por um mateiro.

O pau-rosa é furtivo, discreto, parecido com outras árvores da floresta.

Mesmo os mateiros, às vezes, só conseguem indentificá-lo pelo cheiro, inconfundível. Também não gosta de aglomeração. Nas concentrações mais densas, pode haver um a cada dois hectares.

"Para cortar a árvore leva-se, em média, uma hora", conta Martinelli em seu livro Amazônia, o Povo das Águas. "A madeira, que exala um odor de rosa, é muito rija, principalmente perto do miolo. Depois, as toras de mais de 100 quilos são carregadas nas costas até o rio mais próximo." O barco vai e volta do igarapé para a usina, levando as toras e trazendo os mantimentos básicos dos pau-roseiros: fumo, pólvora, café e pilha para as lanternas. "O patrão não dá nada. Só sal e farinha, e acabou." O prato dos caboclos é uma folha chamada mumbaca e a seda para o cigarro é um tecido de madeira, conhecido como livrinho, que eles mesmos fazem. Nas horas vagas, produzem artesanato com cipó para vender na cidade.

Cachaça - Mas o maior martírio começa na viagem de volta para a civilização. Um pouco antes de Faro, o barco pára em um boteco na beira do rio para os caboclos comprarem cachaça (fiado, pois só recebem o pagamento na usina). Quando chegam a Parintins, já estão completamente bêbados. E permanecem assim por dias, até semanas. "Todo mundo na cidade sabe quando chegam os pau-rosistas", conta Martinelli. "Eles ficam largados, caídos no meio da rua e da estrada. Dão dinheiro para todo mundo que passa e, depois de alguns dias, não têm mais nada. Aí procuram o patrão e pedem para voltar para o mato."

Para Martinelli, os pau-roseiros têm duas personalidades: uma na floresta, trabalhando, e outra na cidade, caindo de bêbados. Tradicionalmente, por causa disso, não têm família. A maioria aparenta ser muito mais velha do que é. "O mato mata, deixa você verde", afirma o fotógrafo, com a experiência de quem trabalha há 30 anos na Amazônia. "Essa é a vida do caboclo."



Extração de óleo das folhas pode ser chave para salvação da espécie

Projeto de pesquisador da Unicamp permitiria produção contínua, sem derrubada de árvores



O desaparecimento do pau-rosa não preocupa apenas ambientalistas, mas também a indústria de perfumaria e cosméticos. Sem a árvore, que só existe na Amazônia, perfumes clássicos como o Chanel N.º 5 perderiam sua fórmula original. Além de seu perfume único, o óleo essencial de pau-rosa é rico em linalol, substância que fixa o aroma no corpo.

O linalol sintético surgiu como opção na década de 80 para mercados menos exigentes, como o de sabonetes, mas foi rejeitado pela alta perfumaria. Mais recentemente, estudos apontaram fontes alternativas da substância na sacaca, uma planta medicinal, e até no manjericão. O pesquisador Lauro Barata, do Laboratório de Química de Produtos Naturais da Universidade de Campinas (Unicamp), entretanto, é o único a propor a extração de linalol do próprio pau-rosa. Só que das folhas, em vez da madeira.

Barata desenvolveu um projeto que prevê, em cinco anos, a produção de uma tonelada de óleo essencial de folha de pau-rosa para cada 30 hectares de árvores plantadas. A proporção, de 1%, é equivalente à obtida com a madeira - 10 quilos de óleo por tonelada de tronco - e a qualidade do óleo é bastante semelhante. "Muda um pouco o aroma, mas podemos corrigir isso no laboratório", afirma o pesquisador. "Já apresentei amostras para a maioria das grandes indústrias perfumeiras e todas aprovaram. Acredito que não faltarão compradores."

A tecnologia para a extrair o linalol das folhas também é a mesma da madeira, com a vantagem de que as árvores não precisam ser derrubadas. Com o carimbo de produto "ecologicamente correto", o pesquisador calcula que o preço do quilo do óleo deva subir de US$ 40 para US$ 50. Com o aumento da oferta, entretanto, esse valor poderá cair.

Financiamento - Barata trabalha em parceria com João Ferraz, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e três produtores de óleo de pau-rosa. O projeto, de R$ 650 mil, foi submetido ao Ministério do Meio Ambiente para financiamento. A resposta é aguardada até agosto. Enquanto isso, os pesquisadores estudam as melhoras técnicas de plantio e extração do óleo das folhas. Dois produtores já plantaram mais de 20 mil árvores, antecipando os resultados positivos do trabalho.

O pesquisador da Unicamp está convencido de que o pau-rosa, assim como outras espécies, pode contribuir para a valorização e preservação da floresta. Segundo ele, há mais de mil tipos de plantas aromáticas na Amazônia, mas apenas o óleo do pau-rosa é explorado comercialmente. "É um absurdo que com tantas possibilidades seja aproveitada apenas uma." Dos US$ 15 bilhões movimentados pelo mercado internacional de produtos naturais, o Brasil, país com a maior biodiversidade do planeta, aponta Barata, participa com apenas US$ 200 milhões. (H.E.)



Nas décadas de 60 e 70, o auge da exploração

Atividade chegou a empregar 30 mil trabalhadores, mas hoje está em declínio



A exploração predatória do pau-rosa começou nos anos 30, atingiu seu auge nas décadas de 60 e 70, e está em declínio desde então. A indústria que já empregou 30 mil pessoas hoje está limitada a cerca de 2 mil, segundo o pesquisador Lauro Barata, da Unicamp.

O pau-rosa entrou para a lista de espécies ameaçadas e aqueles que ainda utilizam seu perfume sofrem pressão de movimentos ambientalistas. A árvore quase desapareceu do alcance do homem. E a produção anual, de 450 toneladas de óleo em 1950, segundo Barata, despencou para 50 toneladas, atualmente. A introdução do linalol sintético nos anos 80 também contribuiu para a queda na exploração.

A atividade sobrevive apenas no Amazonas, onde funcionam nove usinas, diz o agrônomo Malvino Salvador, técnico estadual do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os dados oficiais do órgão registram uma queda ainda maior nas exportações do óleo no Estado: de 27, 9 toneladas, em 1999, para 11,9 toneladas, em 2001. Até junho deste ano, foram exportadas 5,2 toneladas. O principal comprador são os Estados Unidos, seguidos da Bélgica, França, Reino Unido e Alemanha.

Mais do que a escassez de árvores, entretanto, Salvador atribui o declínio à fiscalização do Ibama. A atividade só foi regulamentada em 1998, por meio de um portaria. Todos os cortes precisam ser autorizados e, para cada barril exportado, o produtor é obrigado a plantar 80 mudas de pau-rosa. A fiscalização, segundo Salvador, é feita nas usinas. "O produtor só pode vender o óleo se apresentar a guia de origem da madeira." O índice de ilegalidade fica abaixo de 20%, garante o técnico.

Salvador diz que não considera mais o pau-rosa uma espécie ameaçada. "Não sabemos o estoque atual, mas sabemos quais são as áreas de ocorrência." A devastação maior, segundo ele, ocorreu ao longo dos igarapés, pelo fato de ser uma atividade não-mecanizada. (H.E.)





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