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:: Para evitar incendios florestais, Bush libera derrubada das árvores - por Paul Krugman

Por: The New York Times, 27 de agosto de 2002

Reúna os suspeitos de sempre! O novo plano "Florestas Saudáveis" de George W. Bush parece uma paródia do padrão operacional de seu governo. Ou seja: os ambientalistas causam incêndios nas florestas, e aquelas simpáticas corporações resolverão o problema, desde que saiamos de seu caminho.

Estou sendo duro demais? Não. De fato, é até pior do que parece. "Florestas Saudáveis" não joga fora, simplesmente, a proteção ambiental; expande, também, os benefícios às corporações.

Todo mundo concorda que o principal mal das florestas é Smokey, o urso bem intencionado, mas contra-producente. Muitos anos de supressão de incêndios levaram a um acúmulo perigoso de árvores pequenas e arbustos altamente inflamáveis. Em algumas florestas nacionais --não todas- é tarde demais para simplesmente reverter a política anti-incêndio: Graças ao crescimento populacional e expansão urbana, algumas florestas estão próximas demais de áreas construídas para que se possa permitir incêndios ocasionais.

Claramente, parte do combustível excedente em algumas florestas da nação deve ser removida. Mas como? Bush diz ter solução gratuita: permitir a retirada de mais madeira, o que afinará as florestas nacionais, produzindo recursos valiosos e reduzindo os riscos de incêndio.

No entanto, o material que precisa ser removido --pequenas árvores e arbustos, em áreas próximas a habitações- não tem valor comercial. O que é bom, do ponto de vista industrial, são as árvores grandes e maduras --o tipo de árvore que, geralmente, sobrevive aos incêndios florestais e, freqüentemente, está distante de áreas habitadas.

Então, o governo propõe fazer acordos com madeireiras. Em troca da remoção do que precisa ser retirado, receberão o direito de extrair outras coisas. Isso significa que, afinal, nada é de graça. Além disso, o plano tem ao menos três outros problemas.

Primeiro: Será que realmente o acordo será fiscalizado? Ou será que os lenhadores simplesmente levarão sua parte e esquecerão a outra? O Serviço Florestal, que seria encarregado da fiscalização, várias vezes foi acusado pelo Escritório Geral de Contabilidade do Congresso de mau gerenciamento e falta de responsabilidade. Além disso, o serviço é dirigido por um ex-lobbista da indústria, bem de acordo com o governo Bush. (No ciclo eleitoral de 2000, 82% das contribuições da indústria de produtos florestais foram para os Republicanos). Não é preciso ser muito cínico para questionar se os madeireiros realmente serão forçados a cumprir suas promessas.

Segundo, associar a derrubada de árvores maduras com a limpeza de arbustos é uma política ilógica. Suponha que o prefeito Mike Bloomberg anunciasse que a companhia de limpeza urbana recolheria o lixo de Manhattan de graça, em troca do direito de jogar lixo tóxico na Ilha Staten. Os moradores da ilha argumentariam, corretamente, que se Manhattan quisesse seu lixo recolhido, deveria pagar pelo serviço; se a cidade quisesse vender o direito de jogar lixo em outra parte, deveria tratar o assunto em separado. Da mesma forma, se o governo federal quiser limpar os crescimentos recentes das florestas, deve pagar por isso; se quiser vender o direito a cortar árvores maduras em outra parte, deve tomar decisão separada.

O que nos leva ao último ponto: o governo não ganha dinheiro quando vende madeira.

De acordo com o Escritório Geral de Contabilidade, o Serviço Florestal gasta mais dinheiro negociando as vendas de madeira do que arrecada com as vendas. Por que tanto dinheiro? Engraçado você perguntar: No ano passado, o governo Bush parou de divulgar essa informação. De qualquer forma, os custos das vendas de madeira mostram apenas uma fração dos verdadeiros custos orçamentários para derrubar florestas nacionais, que é patrocinado por centenas de milhões de dólares em subsídios federais, especialmente para reconstrução de estradas. Isso significa que, independentemente das questões ecológicas, o acordo proposto, provavelmente, acabará custando mais aos contribuintes, não menos, do que lidar com o problema de forma direta.

Então, como no caso da política energética do governo, por baixo da retórica de mercado livre, existe um projeto de mais subsídios a corporações favorecidas. Surpresa.

Uma última observação. Não seria bom se, ao menos uma vez, em alguma questão, o governo Bush criasse um plano que não envolvesse menos proteção ambiental, benefícios financeiros para corporações e indivíduos ricos e menor supervisão pelo público?

Tradução: Deborah Weinberg

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