:: Charles Secrett Diretor executivo da Friends of the Earth (Amigos da Terra) no Reino Unido
Por: Anna Muggiati, realizada no Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro, junho de 2002
Todo o poder da informação
O diretor executivo da Friends of the Earth – FOE (Amigos da Terra) na Inglaterra, país de Gales e norte da Irlanda é profundo conhecedor da realidade brasileira e absolutamente positivo sobre os rumos tomados pela sociedade civil depois da Rio-92. Ele acredita que o trabalho das organizações não-governamentais é definitivo para influenciar na tomada de decisão de governos e fazer com que os tratados negociados em conferências cheguem ao conhecimento público.
Em 1985, depois de realizar uma pesquisa profunda sobre a devastação de florestas tropicais, Secrett lançou a Campanha Internacional de Florestas Tropicais. Esta foi a primeira campanha no planeta a identificar as causas políticas, econômicas e sociais da devastação das florestas. Liderou a campanha por três anos e continua a participar das ações em países como Malásia, Brasil, Costa Rica e Nicarágua. Secrett acredita, entretanto, que o trabalho das organizações da sociedade civil devem sempre seguir o caminho do diálogo: “Temos que tratar das questões de forma não-violenta e transmitindo boa informação para que os cidadãos possam pressionar governos e corporações a fazerem uma mudança na sua abordagem de desenvolvimento”.
• Como fazer do desenvolvimento sustentável uma realidade?
R - O conceito de Desenvolvimento Sustentável é muito poderoso. Propõe que para o homem progredir é necessário que ele integre as prioridades sociais, do meio ambiente e econômicas. Se os governos fizerem com que um princípio prevaleça sobre os outros problemas surgirão, inevitavelmente. O que você vê nos países tradicionalmente industrializados e desenvolvidos hoje é que quase sempre os objetivos econômicos moldam os rumos e diretrizes da política, que os governos dão mais ênfase a isto do que à justiça social ou à proteção do meio ambiente, isto quase sempre significa que comunidades pobres fiquem privadas do que precisam para viver. No sistema de hoje o crescimento econômico são os interesses de grandes corporações e governos que imperam. Assim precisamos de mais regras e regulamentos que possam assegurar que as comunidades não fiquem sem acesso ao que mais precisam. A essência do desenvolvimento sustentável é que todas as áreas (social, econômica e ambiental), sendo interligadas, são interdependentes, e que não é bom que uma seja sacrificada em nome da outra.
• Como convencer aos políticos a adotarem medidas para o desenvolvimento sustentável?
R - Uma delas é que mostrar a eles que o sistema, da maneira que está, não está funcionando e é insustentável. Mais de dois terços da humanidade, quatro bilhões de pessoas não estão conseguindo sobreviver sob tais circunstâncias, estamos devastando o meio ambiente. Cada um dos ecossistemas a extinção de espécies mais rápida do que o normal, isto é o desenvolvimento insustentável em qualquer critério. O segundo modo de convencê-los é mostrar que existe uma nova maneira de fazer a economia andar, que é justamente investindo na solução destes problemas. Quando você adota meios de produção mais limpos ou evita a exaustão dos recursos naturais, trabalha na otimização e eficiência os recursos, como a madeira, água, minerais, ou o que quer que seja, a economia começa a andar. Cria empregos. O maior mercado sob demanda é o de tecnologias limpas, serviços e produtos e infraestrutura que hoje está movimentando entre US$ 250 e US$ 300 bilhões de dólares globalmente (OECD) por ano e crescendo numa taxa de 5 a 7 % ao ano. Isto é sobre a economia e não sobre o meio ambiente. A única coisa que bloqueia os políticos de enxergarem esta situação é uma questão ideológica. Basicamente eles não acreditam nisto, estão tão trancados no sistema político do passado. É por isso que existe o dever de cada cidadão em entender o que está errado e agir para por governos e pessoas na organização assim eles podem cobrar de seus governos e empresas.
• Qual é o papel das não-governamentais nesta articulação?
R - Podemos ser catalisadores mudanças se fizermos três coisas. A primeira é a de divulgar informação de boa qualidade por que informação é, hoje, sinônimo de poder. Então o que devemos fazer é reunir a informação certa na hora e para as pessoas certas para que possamos melhorar. Nossa abordagem deve ser tanto o que achamos que está errado quanto propor soluções para estes problemas. A gente deveria inspirar ações, de incentivar as pessoas, de cidadãos a investidores e acionistas a terem como critério de escolha como a sua casa, empresa e empregador se relacionam com o meio ambiente. Nosso papel é garantir a formação de cidadãos que possam alertar as pessoas sobre o que está acontecendo no mundo. Assim você dá bases para que as pessoas possam agir e influenciar na política. Em casa os indivíduos poderão também escolher o que fazer na escolha de produtos de limpeza e na maneira de viver de forma sustentável. Elas devem instrumentar os cidadãos individualmente para que eles ajam em relação aos políticos, e finalmente você tem que focalizar os seus esforços. Você poderá fazer parcerias e ajudar a mudar o que está errado ou apenas apontar os erros criando uma relação mais antagonista. Seja qual for a opção, tudo tem que sempre ser feito de maneira absolutamente pacífica aproveitando as oportunidades da democracia.
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