:: Nitin Desai Secretário-geral da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável de Joanesburgo
Por: Anna Muggiati, realizada no Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro, junho de 2002
Pela continuidade das conferências
O Secretário-geral da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável de Joanesburgo tem certeza que a Rio+10 é a seqüência necessária para fazer com que posicionamentos tomados na Rio-92 sejam consolidados. O otimismo reverbera não só pelo fato de que Desai chefia a Rio+10, mas pela visão de que ela será muito mais democrática do que a Rio-92 uma vez que terá painéis abertos permanentemente pela Internet.
O sub Secretário-geral da ONU para Assuntos Sociais e Econômicos tem conhecimento de causa profundos sobre a onipresente questão do Desenvolvimento Sustentável. Ele foi secretário de Economia do Conselho do Primeiro Ministro da Índia e logo depois da Rio-92 assumiu o cargo de sub Secretário-geral do recém criado Departamento para Coordenação Política e Desenvolvimento Sustentável. Em 97, foi indicado para dirigir três departamentos econômicos e sociais da ONU.
Antes de trabalhar na ONU, Desai foi secretário e conselheiro-chefe de economia do Ministério de Finanças da Índia. Atuou como conselheiro sênior de economia para a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento. Entre 1990 e 93, foi o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - Rio-92. Sua principal tarefa foi coordenar a elaboração do principal documento da conferência, a Agenda 21.
• Como a prática do Desenvolvimento Sustentável poderá contribuir para que a globalização possa ajudar na formação de uma sociedade menos desigual?
R - Fará a sociedade mais justa em dois sentidos. O primeiro componente do desenvolvimento sustentável é a igualdade. Isto significa que, se estamos perseguindo a realização deste conceito, estamos diretamente trabalhando para acabar com a desigualdade, a pobreza. Assim o desenvolvimento sustentável poderá dar uma cara mais humana e humanitária a globalização. O segundo sentido é que o Desenvolvimento Sustentável está embasado numa visão deCrescimento a longo prazo, não apenas no que está acontecendo hoje, mas também as conseqüências no futuro sobre o que fazemos hoje. Assim, a maior parte das pessoas preocupadas com a globalização estão enxergando as coisas a longo prazo, que serão produto de uso indiscriminado de certas tecnologias predadoras. Se estamos em busca do Desenvolvimento Sustentável temos que ter um foco fixo em tecnologias mais limpas, desenvolvimento com bom uso dos recursos naturais. Se os países tiverem um bom uso de seus recursos, fazendo
uma boa estratégia de desenvolvimento sustentável, eles estarão imediatamente concordando com dois dos mais importantes pontos com os quais as pessoas que estão preocupadas com os efeitos da globalização estão também preocupadas: a dimensão social e a dimensão a longo prazo.
• Como o senhor acredita que os países desenvolvidos entenderão e praticarão um desenvolvimentos que a longo prazo seja sustentável?
R - As coisas estão ocorrendo gradualmente, mas estão acontecendo. Nos países em desenvolvimento existem consideráveis melhoras em relação ao desenvolvimento. É claro que ainda temos problemas e que o abismo ainda está aí. O que eu acredito que está acontecendo agora é o reconhecimento de que eliminar o abismo entre ricos e pobres é interesse também daqueles países que são fortes. Que também devem se interessar por um mundo mais justo. Esta é a diferença de hoje e que é conseqüência de conferências como a que estamos fazendo. E espero que possamos continuar mantendo esta pressão em Joanesburgo. O desenvolvimento sustentável é, na verdade, um interesse comum a todos os países, não apenas aos países pobres. E o componente principal é estreitar as desigualdades.
• Existem muitas críticas sendo feitas sobre o conteúdo das discussões que serão realizadas em Joanesburgo. Qual o ponto que o senhor sustenta que vai transformar esta conferência em resultados positivos?
R - O lado positivo está garantido pela continuidade de um processo. A Rio 92 foi um marco ao travar novos conceitos, idéias visões sobre grandes projetos. O grande problema foi que nenhum destes programas foi de fato implementado. Assim, Joanesburgo é uma Conferência que está muito próxima da Rio-92, fazendo ela acontecer. É convencer ao mundo que temos argumentos e compromissos consistentes que podem implementar a sustentabilidade em áreas-chave, como água, saneamento, saúde, agricultura e biodiversidade. A contribuição de Joanesburgo será dar seqüência ao que foi elaborado na Rio-92. Imagine que a Rio-92 foi um mapa e que Joanesburgo vai traçar as rotas em cima deste mapa.
• Qual a forma ideal de participação da sociedade civil nesta conferência?
R - A sociedade civil tem sido muito eficiente. Mesmo agora, a mobilização da sociedade para esta conferência é provavelmente muito maior da dos governos é bastante concreta, precisa e muito consistente em realação ao que os governos estão negociando. É claro que eles estão exigindo muito mas isto é um dos produtos naturais da Rio-92 e a partir de então as ONGs puderam até desenvolver parcerias com governos na elaboração de políticas. Mas agora o momento é de implementar estas idéias. Por isso é importante a formação de várias políticas de ONGs locais, e em Joanesburgo teremos muitas vídeo-conferências para que este diálogo seja possível e possamos conhecer iniciativas locais. Temos hoje a tecnologia de comunicações a nosso favor. Poderemos conhecer projetos de campo. É uma possibilidade interessantíssima. O evento da Internet é um facilitador, e será uma grande ferramenta a trabalhar pela democracia.
• Da Rio-92 até hoje fomos muito eficientes em aprender e elaborar elementos em prol do desenvolvimento sustentável. Como vamos evoluir daqui para frente?
R - Vamos evoluir para praticar este conceito tanto no nível local como global. Precisamos entender e fazer vale o que ele significa para o saneamento e a distribuição de água potável, no planejamento e arquitetra urbanos, em políticas energéticas e no manejo da biodiversidade. Sobre como ele pode ser usado na necessidade de prover alimentação para os seres humanos.
• Qual o cenário teremos em 30 a 40 anos?
R - Acredito que por volta de 2050 o mundo tenha conseguido fazer a transição para a sustentabilidade e que nossas marcas ecológicas pelo planeta seja diferente da de hoje. Que a prosperidade não tenha que sacrificar os recursos naturais, e que tenhamos encontrado uma forma mais eficiente de utilização de nossos recursos. Em alguns casos temos que rever exatamente nossos estilos de vida. Minha esperança é que até 2050 tenhamos atingido um crescimento estável de crescimento com equilíbrio ecológico. Neste caso é uma sociedade que não tenha inveja do nível de consumismo de outra sociedade. O consumismo vem exatamente de exceder ao consumo do necessário. Não queremos que as pessoas fiquem privadas de bens, mas que pensem muito em usar o necessário. Isso só será possível com uma maior equidade. Pois enquanto existirem pessoas que ficam por baixo do sistema, sempre haverá a necessidade de ascender e, assim, a estabilidade nunca será atingida.
• Dentro do sistema das Nações Unidas qual o peso do Programa para o Desenvolvimento Sustentável? Ele está bem infiltrado em todos os departamentos?
R - Em algumas áreas está bem incorporado, principalmente naquelas que estão bem ligados, como naquelas ligadas à água, saneamento, energia. Niguém pensa hoje nestas questões sem relacioná-las com o meio ambiente. Agora é a hora de fazer com que as questões entrem no campo das finanças, comércio e economia. Ali teremos que gastar mais tempo. Esta discussão, por exemplo, já começou na OMC (Organização Mundial de Comércio). As organizações financeiras também estão ficando mais alerta sobre a importância da questão e que estas questões têm que se integrar cada vez mais a outras questões. Ou seja, algo aconteceu e tem que ser continuado.
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