:: Ian Johnson
Vice-presidente do Banco Mundial para a Rede Ambiental e Social de Desenvolvimento Sustentável.
Por: Anna Muggiati, realizada no Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro, junho de 2002
Muito Além do Discurso da Fome
Para o economista Ian Johnson, a agricultura é um dos temas mais importantes para desenhar qual o mundo que queremos construir nos próximos 40 anos. O vice-presidente do Banco Mundial para a Rede Ambiental e Social de Desenvolvimento Sustentável considera que é necessário promover um fórum interdisciplinar no qual estejam presentes todos os atores que fazem parte do processo de desenvolvimento e inclusão social: comunidade científica, sociedade civil, empresários, agricultores, financiadores e governos.
Dr. Johnson conhece de perto todos os temas que hoje estão em ebulição sobre o futuro da alimentação, da agricultura orgânica aos polêmicos transgênicos. Antes de juntar ao Banco Mundial, o economista passou cinco anos em Bangladesh trabalhando em uma ONG na área de planejamento da UNICEF. Seu foco é discutir os desafios enfrentados pela agricultura e fazendeiros pobres de países em desenvolvimento, e como o CGIAR (Consultative Group on International Research) pretende renovar seu compromisso em atender às necessidades de segurança alimentar, e também às necessidades relacionadas ao aquecimento global.
• Qual sua avaliação sobre a evolução do Desenvolvimento Sustentável nos últimos dez anos?
R - A partir da |Rio 92 tivemos várias iniciativas que foram o ponto de ignição de uma longa jornada que está apenas em seu começo. Entre elas temos a Agenda 21, um marco que serve de referência para tudo, as convenções do clima, biodiversidade, desertificação entre outras iniciativas pequenas mas que começam a ganhar corpo. Criamos o Global Environment Facility (GEF), o primeiro mecanismo de financiamento a ser utilizado para projetos ambientais. Na verdade conseguimos engajar a sociedade civil, o que foi um grande avanço.
• Como será o suprimento de alimentos nos próximos 40 anos e o cenário do Desenvolvimento Sustentável?
R - Existem grandes desafios à vista para os próximos 40 anos. Hoje temos comida suficiente para alimentar o mundo, mas o problema é o acesso a este alimento, à renda per capta e, assim, como possibilitar que as pessoas tenham dinheiro para comer. Nos próximos 30 a 40 anos, de acoprdo com as taxas previstas para o crescimento, teremos mais 2 bilhões de pessoas no planeta, e também teremos mudanças sensíveis na renda per capta que também aumentará seguindo as projeções. A questão mais séria que temos que pensar hoje é que tipo de agricultura deveremos desenvolver. Espero que Joanesburgo sirva como uma espécie de plataforma para que este processo comece.
• Como os grandes produtores agiriam nesta redistribuição do acesso ao alimento?
R - É exatamente este o problema. Temos que começar a tratar seriamente do problema. Hoje o mundo sabe como distribuir alimento em casos drásticos como em guerras ou desastres naturais. O que não sabemos ainda é como tratar do problema estrutural da fome. Hoje são 800 milhões de pessoas indo dormir com fome no mundo todo. Temos que lembrar ainda que agricultura não é apenas comida, é sobre muitos problemas. Cada vez mais a agricultura é sobre manejo ecológicos. Os agricultores cada vez mais são os que decidem o destino do meio ambiente. Ou seja, a agricultura tem que ser abordada em todo o seu contexto, do gerenciamento de recursos hídricos aos efeitos na biodiversidade e tratamento do solo.
•Como o senhor vê o cenário para o Desenvolvimento Sustentável nos próximos 40 anos?
Existe a necessidade de acontecer crescimento econômico. Deve acontecer uma discussão a longo prazo em dois aspectos. A primeira é sobre a segurança do mercado, e do comércio por que os países em desenvolvimento estão passando por uma temporada muito difícil enquanto a agricultura subsidiada dos países em desenvolvimento tem cerca de US$ 1 bilhão por dia em subsídios. Assim precisamos desenvolver caminhos que permitam aos países em desenvolvimento a facilitarem negociações e entre países desenvolvidos e em desenvolvimento possam acontecer. Em segundo lugar precisamos que um grande debate seja feito para definir o cenário da agricultura nas próximas datas, qual será o papel da agricultura orgânica, da biotecnologia, como ajudar na implantação de técnicas apropriadas na África, por exemplo, que produz menos de três quartos quando comparados à capacidade de produção de ecossistemas similares na Ásia. Existem temas mais polêmicos que também devem ser tratados, como por exemplo, a agricultura biológica e transgênica que não têm isto. Se não fizermos isto não teremos uma plataforma sólida para saber e desenvolver uma agricultura socialmente e ecologicamente correta.
• Teremos a chance de atender às demandas do futuro sem ter que recorrer aos alimentos transgênicos?
R - Acredito que sim, mas precisamos de tempo para encontrar as respostas. A biotecnologia tem suas vantagens por que permite menos uso de pesticidas que causam prejuízos ambientais. Precisamos encontrar, entretanto uma forma que seja socialmente aceitável que pode incluir ou não a biotecnologia, que poderá incluir ou não os transgênicos. Precisamos de uma discussão séria e profissional para encontrar estas respostas, que tenha na mesa todos os atores que fazem parte da cadeia para encontrar uma nova maneira de encontrar agricultura sustentável. No meu ponto de vista agricultura sustentável é aquela que representa crescimento, ainda mais em países que têm cerca de 40% de seu PIB correspondentes aos produtos da agricultura. Esta agricultura tem, entretanto, que provocar o menor dano possível ao meio ambiente e ainda ser adaptativa. Existem estudos que apontam que parte do território sub-Sahara, África e Ásia, sem atenção os campos de atenção podem ter uma queda de produtividade de 20% a 30%. Mas tudo isso tem que ser socialmente aceitável. Se isto não for feito teremos um caminho difícil pela frente.
• Como articular os setores da sociedade para que esta transformação aconteça?
R - Existem alguns exemplos que podemos usar como modelos. Um dos mais importantes que tive foi no IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) que foi conduzido de forma ideal, tendo a participação de todos os setores da sociedade e com uma base científica muito boa. Este painel é tão importante que acabou dando forma tanto a políticas públicas como privadas e até na sociedade civil. É isso que devemos fazer sobre os transgênicos, que também inclui uma discussão ética. Precisamos dessas conversas para dar base e nos impulsionar ao futuro. Mas estas discussões – e acredito que ela está embutida no que vai acontecer em Joanesburgo – é trazer a sociedade civil de alguma forma na mesa.
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