Entrevistas
:: James Cameron
Membro da Comissão de Direito Ambiental da IUCN (International Union for Conservation of Nature and Nature Resourses) e diretor de Pesquisa sobre Meio Ambiente Global e Comércio na Universidade de Yale, nos EUA

Por: Talita Figueiredo, entevista realizada no Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro, junho de 2002

O inglês James Cameron é membro da Comissão de Direito Ambiental da IUCN (International Union for Conservation of Nature and Nature Resourses) e faz parte do Comitê de Litígios Ambientais Transnacionais da Associação Internacional de Direito. Cameron dirige a Pesquisa sobre Meio Ambiente Global e Comércio, na Universidade de Yale (Estados Unidos), onde é senior fellow, e é também professor de Direito no College of Europe (Bélgica). Participou das negociações de diversos acordos internacionais durante a Eco-92, no Rio, e atuou com destaque nas negociações do Protocolo de Kyoto.

James Cameron considera impressionante que, mesmo com as notícias e estudos comprovando drásticas mudanças climáticas, pouco foi feito até agora. “Você pensa que, pelo que se houve falar, os governos já deveriam ter feito alguma coisa. Qualquer governo que se importe com seus cidadãos deveria investir em ações internacionais para a proteção da sociedade e do meio ambiente”, afirma. Cameron acredita estarmos chegando perto do ponto de partida para essas mudanças, contudo lamenta nada ter sido significante até agora. Segundo ele, um bom exemplo é que até hoje nenhum governo ganhou eleições elegendo temas como este como prioridade. Alguns nem chegaram a incluí-los em sua lista de preferências.

1– Quais as realizações, no âmbito do desenvolvimento sustentável nos últimos dez anos? Quais metas não atingidas poderiam ter melhorado a situação atual?

James Cameron – As maiores realizações nos últimos dez anos são conceituais e têm a ver com o diálogo. Em especial, essas mudanças incluem o início do pensamento sobre o relacionamento entre meio ambiente e economia, com um aumento na consciência da população para que haja maior entendimento da complexidade entre proteção do meio ambiente e desenvolvimento econômico. Além disso, há um diálogo mais abrangente para estabelecer processos que envolvem soluções. Ainda não passamos do debate sobre meio ambiente para as metas concretas, que tenham a ver com a economia. Na próxima fase, precisamos nos concentrar diretamente nas questões ambientais, e elas precisam se tornar o centro do governo e se transformar no seu objetivo.

2 – De que forma o desenvolvimento sustentável pode ser um instrumento para tornar a globalização mais inclusiva e eqüitativa?

James Cameron – O movimento da globalização é muito importante no nosso tempo. Espero que, para resolver esses méritos, as pessoas comprometidas com esse processo, como os especialistas convidados para a Rio+10 Brasil, sintam instintivamente como fazer isso. Ao olhar para o lado e ver que as pessoas estão envolvidas nisso há muito tempo, entenderão que elas podem colaborar para resolver os problemas, mesmo que não concordem com alguns dos seus pontos de vista. Essa é a atitude que precisaremos adotar para lidar com a globalização e o desenvolvimento sustentável. Só entendendo e respeitando as diferenças e complexidades de cada um é que vamos chegar ao desenvolvimento sustentável desejado.

3– Quais suas expectativas para a Cúpula de Joanesburgo?

James Cameron – As expectativas são poucas. Todos nós que estamos envolvidos nesse processo há tanto tempo pagaremos caro, se fracassarmos. Será muito difícil discutir o papel das organizações não-governamentais em decisões internacionais e a importância do desenvolvimento sustentável em negócios internacionais. Essas coisas, porém, se tornarão mais complicadas de se realizarem se falharmos na Cúpula de Joanesburgo. Ainda não temos garantias de que todos os participantes registrados vão comparecer. Uns não vão somar muito; outros, nem vão. A Agenda 21 é grande e não foi bem estruturada. Muito do trabalho vai ser ridicularizado pela mídia, se mostramos em Joanesburgo apenas o que já temos hoje. Mas é por isso que estou aqui, na Rio+10 Brasil. Eu não teria vindo, caso não acreditasse que essas reuniões não fossem fazer uma diferença. Precisamos elaborar uma lista mais curta e objetiva do que pode ser feito. Essa lista deve incluir planos para energia sustentável, água e outras questões globais. Precisamos fazer algo construtivo nesse curto período de tempo que nos resta.

4– A partir de sua perspectiva pessoal, como o senhor visualiza o cenário, nos próximos 10 a 30 anos, em termos de desenvolvimento sustentável?

James Cameron – Quero ver governantes ganharem eleições com planos voltados para o meio ambiente. Quero vê-los dizer: a razão pela qual vocês me elegeram é porque eu entendo o significado do desenvolvimento sustentável, não num conceito abstrato, mas abraçando esse propósito. Quero ouvir candidatos dizerem: me elejam e eu vou lidar com o problema das mudanças climáticas. Votem em mim e vou planejar um jeito de responder às questões de segurança ambiental e saberei gerenciar uma forma para que todos tenham acesso à água. Precisamos que a questão ambiental, em todo o mundo, seja tão importante quanto a econômica. Espero ouvir candidatos dizendo: me elejam e eu vou gerenciar a economia com eficiência. Necessitamos de uma nova linguagem para os próximos dez anos, e este será o momento no qual os que hoje são chamados de ambientalistas idealistas, sejam os realistas de amanhã. É preciso que os próximos dez anos, para a maior parte do mundo, sejam de desenvolvimento e redução dos problemas ambientais.

5 – Como podemos melhorar a articulação e a parceria entre o governo e a sociedade civil nesse campo?

James Cameron – Há uma responsabilidade de os líderes políticos mostrarem à sociedade a necessidade de se proteger o meio ambiente. Já há sinais de que isso está sendo feito. Precisamos dos radicais. Eu não sou um deles, sou uma pessoa que gosta de se dar bem com os outros, gosto de poder trabalhar com ONGs e governo.

6– Em seu campo específico de atividade, quais as principais ações que poderiam ser tomadas, de maneira a viabilizar os resultados da Cúpula?

James Cameron – Existe uma pequena lista de coisas que devem ser feitas, mas me impressiona o avanço de alguns acordos internacionais, e é até incrível que existam. São acordos como os da Eco-92 e o Protocolo de Kyoto, acordos em biodiversidade, espécies ameaçadas. Imagine, onde se podem colocar 170 companhias em uma sala e pedir que negociem sobre algo? É difícil. E pensar que conseguimos aprovar o acordo sobre mudanças de temperatura em pouco mais de um ano... Um esforço desse num congresso nacional nunca daria certo. Mas uma das coisas que aprendemos, nos últimos anos, é que precisamos ter o desenvolvimento de uma relação mais sofisticada entre o governo que intervém nos mercados para proteger as perdas do sistema econômico e o governo que ajuda a construir mercados, em que as soluções podem ser encontradas. Estou muito otimista nessas relações e na criação de mercados. Acredito, também, na redução dos mísseis e na biodiversidade. Acho que essa é uma área em que se deve investir bastante. Já vejo alguns sinais na Europa e mesmo nos Estados Unidos, nesse sentido.

Leia aqui a biografia de James Cameron

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