:: Rubens Harry Born Coordenador do Fórum Brasileiro de Ongs na Cúpula de Joanesburgo
Por: André Muggiati, de Joanesburgo, 29 de agosto de 2002
Rubens Harry Born, coordenador da ONG Vitae Civilis
foi escolhido o coordenador da delegação brasileira do
Fórum Brasileiro de ONGs, na Rio + 10. A
responsabilidade de Born é ser o
interlocutor entre as entidades ambientalistas
presentes em Joanesburgo e os negociadores oficiais
brasileiros na conferência.
Em entrevista exclusiva para o Fórum Brasileiro de
Mudancas Climáticas, Rubens Born analisou a primeira
semana da Cúpula de Desenvolvimento Sustentável,
avaliou o impacto que poderá ter a chegada dos chefes
de Estado à conferência na próxima semana e sugeriu
modificações na maneira como essas reuniões são
organizadas e suas decisões implementadas.
“A conferência tem ainda uma chance, mas está um
cenário muito complicado”, afirmou. Leia a seguir a
íntegra da entrevista.
Como o senhor avalia essa primeira semana da
Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável?
Tem várias coisas para serem avaliadas. A
logística geral, comparando com a Rio 92, piorou.
Embora lá o forum das ONGs e as reuniões oficiais no
Riocentro fossem distantes, estava tudo polarizado em
dois locais. Aqui está tudo espalhado em pelo menos
cinco lugares, então fragmenta os contatos, interações
e a possibilidade de a sociedade civil influenciar a
reunião oficial.
A participação das entidades do mundo em
desenvolvimento está bem maior que, por exemplo, nas
negociações de mudancas climáticas, o que é bom. Do
meu ponto de vista, as ONG americanas também estão mais
apagadas. Elas costumam ter um lobby pesado, que não
está aparecendo aqui.
Em relação ao conteúdo, surpreenderam as plenárias
oficiais mediadas por Jan Pronk, enviado especial do
Secretário Geral da ONU, Koffi Annan, onde foram
discutidos os temas prioritários da conferência (água,
meio ambiente, habitação, agricultura e
biodiversidade). Tinha participação de representantes
da ONU, governos, ONGs, foi muito interessante. Na
discussão sobre água, a qual eu presenciei, por
exemplo, se chegou a conclusão que a água não é um bem
a ser comercializado, mas um direito humano. Houve uma
mudança de concepção.
O problema aí foi que as discussões das plenárias não
influenciam nas negociações, uma vez que os
negociadores nao estavam presentes.
E como estão as negociações?
No geral, o que está faltando discutir são os
papéis das instituições financeiras como o FMI e Banco
Mundial, modificações nas regras de comércio
internacional injustas definidas pela OMC
(Organizacao Mundial do Comércio), as crises das
dívidas internas e externas, a perda de confiança na
avaliação do sistema financeiro internacional e as
decisões unilaterais de alguns países sobre regimes
multilaterais voltados à sustentabilidade ambiental,
aos direitos humanos e à paz mundial.
A conferência está cumprindo seu objetivo de
avaliar os avanços da Rio 92 e traçar um plano de
ação?
O plano de ação que está sendo trabalhado aqui é
incoerente com a avaliação a respeito do não
cumprimento das metas de 92. Essa é uma queixa geral
das ONGs: toda a expectativa era que esse plano
deveria ter metas e recursos para a sua execução.
Agora corre-se o risco de ter poucas metas. Quando
tem, não se identifica os recursos necessários e quem
paga a conta.
Está começando a se falar em metas regionais
diferentes para cada bloco de países. Isso é bom?
É o que chamamos de mínimo denominador comum, ou
seja, nivelar por baixo. O que vai acontecer, por
exemplo, em relação à discussão sobre energia
renovável, uma das que mais chama a atenção, é que os
Estados Unidos, maiores consumidores de energia não
renovável e, por isso, maiores poluidores, vão acabar
ficando sem meta. Você terá metas levando em conta a
realidade de cada um, mas muitas vezes elas serão
definidas a partir do que já existe, o que não muda
nada.
O Brasil vem sendo apontado como um dos
principais lideres nas negociações. Como você avalia
as posições brasileiras?
O Brasil tem papel chave, pelo legado da Rio 92,
por ser um país megadiverso (com grande estoque de
biodiversidade) e porque se prepara para esse tipo de
reunião internacional, com reuniões interministeriais
e inclusive incorporando reivindicações da sociedade
civil, como ONGs e centrais sindicais. Outro ponto
positivo é o fato de o governo ter inscrito as ONGs do
país como membros da delegação oficial, o que nos
permite assistir às reuniões onde não poderíamos
estar.
O nosso temor é que nas negociações, para introduzir
aquilo que quer, o Brasil acabe abrindo mão de outras
coisas importantes para o país. O Brasil está se
concentrando na discussão das metas de energia
renovável. Nosso medo é que abra mão de outras coisas
valiosas para o país, como a biodiversidade.
Qual o peso das ONGs nas discussões? Como
elas conseguem influenciar o processo de decisão?
As ONGs se reúnem em grupos temáticos, chamados
caucus, para discutir água, povos indígenas, jovens e
vários outros temas. Com as decisões tomadas nos
caucus, cada entidade volta para tentar influenciar a
delegação do seu país. Dessa forma elas agem de
maneira organizada, buscando influenciar o processo.
Outra forma de pressão são as entrevistas coletivas,
onde se busca sensibilizar a mídia -- o que também
resulta em pressão. Muitas vezes se consegue mudar o
rumo das discussões.
As negociações avançaram pouco até agora. A
chegada dos chefes de Estado pode modificar esse
quadro?
Tem o potencial de mudar. Alguns assuntos onde
não houve consenso, como clima, energia, recursos
financeiros, vão ficar nas maos dos chefes de Estado.
Tem tambem a questão da criação de um fundo de combate
à pobreza, que eles vão discutir. Eu espero que a
presença deles aqui tenha o efeito de reverberar na
mídia mundial, concentrando a atenção do planeta nos
rumos da conferência. Mas a possibilidade de os EUA
iniciarem uma guerra contra o Iraque pode ser uma
estratégia de George Bush de desviar a atenção do que
acontece aqui.
Já se pode considerar a conferência um
fracasso?
Está nas mãos dos chefes de Estado. Estamos mais
perto do fracasso que do sucesso. Tem ainda uma
chance, mas está um cenário muito complicado.
Será que daqui a dez anos vamos ter uma Rio
+ 20, onde se vai enfim discutir a questão de sanções
para os países que não cumpriram com as decisões
contidas no documento que sairá daqui?
Eu não gostaria de esperar 10 anos para ver as
coisas acontecerem. O que é necessario é uma reforma
das Nações Unidas e dessas negociações, para discutir
a questão das sanções. Tem muita hipocrisia nas
discussões, pois alguns países são progressistas
defendendo alguns pontos, mas não querem saber de
discutir aspectos onde são fracos.
Esta conferencia está mostrando que o processo de
discutir essas questões e implementar soluções precisa
ser modificado. O desafio do seculo 21 é avaliar os 50
anos da ONU e discutir a governança internacional.
Isso significa ver como são tomadas as decisões em
termos mundiais, como são cumpridas, quem avalia. Para
que isso seja possível, cada país precisa pagar um
pouco, abrindo mão de cotas de sua soberania.
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