:: Fabio Feldmann
Assessor especial de Fernando Henrique Cardoso para a Rio + 10
Por: André Muggiati especial para o Grupo de Trabalho Rio + 10, de Joanesburgo, 1 de setembro de 2002
Fabio Feldmann, secretário executivo do Fórum
Brasileiro de Mudanças Climáticas, chegou anteontem a
Joanesburgo acompanhando o presidente Fernando
Henrique Cardoso. Em entrevista exclusiva, Feldmann
criticou o sistema de decisões das Nações Unidas, para
ele, responsável pelo fracasso da Rio + 10. Leia a
seguir a íntegra da entrevista onde ele defende uma
reestruturacao na liga das nações:
Grupo de Trabalho Rio+10 - Como você compara a conferência de Johanesburgo com a
do Rio, em 92?
Essa conferência se dá em um momento muito diferente.
Em 92 estávamos no fim da Guerra Fria, após a queda do
muro de Berlim. Agora, temos o agravamento da pobreza,
aumento da desigualdade. São dois climas muito
diferentes. O que está acontecendo aqui é um reflexo
de um humor muito negativo. No Rio, o objetivo era de
firmar conceitos. Aqui, era de implementar. Porém, com
o momento político em que vivemos, nosso objetivo
agora era de evitar retrocessos.
Grupo de Trabalho Rio+10 - Como estão as negociações ?
Os Estados Unidos estão menos duros aqui do que
estavam nas conferências preparatórias. Já os
europeus estão mais duros, talvez por consequência
das eleições na Europa, que elegeram governos mais
conservadores. O tema de energia, por exemplo, está
trazendo muitas dificuldades para o Brasil. Também é
importante ressaltar a pouca participação da sociedade
civil. Muita gente demorou para perceber a importância
dessa conferência, muita gente nem veio. Desde 92 os
ambientalistas perderam um pouco a vitalidade.
Grupo de Trabalho Rio+10 - Em seus discursos, os líderes de diversos países do
primeiro mundo prometeram acabar com os subsídios
agrícolas. Isso é sério?
Nos discursos esses líderes afirmam isso. Mas quando
vamos ver a realidade na prática, eles não defendem a
redução dos subsídios em seus países.
Grupo de Trabalho Rio+10 - Este tipo de conferência, em que todos os países têm o
poder de veto, ainda funciona?
Eu acho que essa conferência aqui encerra esse ciclo
de grandes conferências das Nações Unidas, que se
iniciou no Rio. É preciso encontrar outros formatos de
participação e tomada de decisão. Mas também não se
pode reproduzir o formato do Conselho de Segurança da
ONU, em que apenas uma parcela dos países detém todo o
poder. Tem de ser uma coisa intermediária. Eu creio
que essa próxima década servirá para redesenhar o
papel e a estruturação das Nações Unidas.
Grupo de Trabalho Rio+10 - O texto que está saindo aqui em Joanesburgo contém
mais de cem menções a outras conferências da ONU, como
a de Doha (da União Mundial de Comércio) e de
Monterrey (sobre o financiamento do desenvolvimento).
O que voce pensa disso ?
Isso decorre de uma deficiência das Nações Unidas. Não
há integração entre o que é tratado nessas
conferências internacionais. O que sai dos acordos
muitas vezes não é cumprido. Como no caso das
contribuições para os países em desenvolvimento.Em
1992, os países desenvolvidos contribuíam com 0,38% do
seu PIB e na Rio 92 se comprometeram a ampliar esse
valor para 0,7%. Mas o que se viu foi uma redução
dessas contribuições para 0,22% do PIB.
Grupo de Trabalho Rio+10 - Voce acha que vai demorar mais dez anos para se
começar a falar em punições para o não-cumprimento das
metas?
Acho que daqui a dez anos vamos estar falando em
metas, prazos e quem vai pagar a conta.
Grupo de Trabalho Rio+10 - Mas esse era o objetivo da conferência de
Joanesburgo. Ela é um fracasso, então ?
Essa conferência é uma reprise malfeita da de 92. Eu
acho que a marca dessa conferência certamente não será
um sucesso. Ela está correndo o risco de ser uma Rio
menos 10 ou Rio menos 20. Se vai ser um fracasso, eu
prefiro que seja um mega-fracasso, para que isso possa
gerar mudanças.
Leia aqui a biografia de Fabio Feldmann
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