:: Parceria retira plástico do rio Purus (AM) A Crítica, 27 de setembro de 2002
O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, em parceria com a empresa Amazonplast e as Prefeituras de Beruri, Tapauá, Canutama e Lábrea, deu início ao projeto "O plástico no limite", que prevê a retirada de plástico doméstico da calha do rio Purus. O biólogo e pesquisador Agenor Vicente, responsável pelo projeto, calcula para essa fase inicial uma retirada de 60 toneladas, tendo em vista os primeiros dias de coleta nos municípios onde a população logo nos primeiros dias recolheu mais de uma tonelada de plástico.
O projeto surgiu a partir da análise de dados feita pelo biólogo através de pesquisa em barcos de turismo de pequeno porte e lagos próximos ao Município de Autazes. Nos barcos foram realizados levantamentos sobre a quantidade de copos descartáveis utilizados nos percursos, chegando a 100 mil ao ano por embarcação, apenas de copos plásticos. Em alguns lagos foi observado o declínio da produção de pescado com o comprometimento da reprodução dos peixes, ocasionado pelo isolamento com o plástico de alta densidade, da água com o fundo dos lagos, impedindo a formação de plâncton, alimentação dos alevinos.
De posse dessas informações, Agenor delineou as ações do projeto definindo a calha do Purus em função da existência da Reserva Biológica do Abufari, que estaria sendo prejudicada na sua ictiofauna. Outro fato que chamou a atenção do pesquisador foi a Festa do Pescador no Município de Tapauá, onde aproximadamente mil linhas foram jogadas ao rio Purus num esforço de pesca e, ao final do dia, pouco mais de 20 peixes foram apanhados, sendo que o maior número era de arraia.
O projeto "O plástico no limite" vai ser implantado em todo o Estado por uma equipe de técnicos do Ibama e da empresa recicladora Amazonplast. A etapa considerada piloto, que abrange a calha do Purus, teve início com a saída do Porto de Manaus, no último dia 3, de uma equipe de cinco técnicos, com destino a Lábrea realizando palestras em barcos-recreio, alertando para o perigo que representa o plástico ao meio ambiente, sobretudo lançado nos rios.
Sorteios de camisetas com slogan incentivando a reciclagem do plástico, transformando-o em dinheiro é uma das formas utilizadas para a disseminação do projeto e, logo de imediato, na própria embarcação surge o primeiro resultado: não se joga mais nenhum tipo de plástico ao rio. Nas sedes dos municípios a equipe proferiu palestras em escolas e igrejas, deu entrevistas em emissoras locais de rádio, convocando todos os segmentos da sociedade a se engajarem no projeto, chamando a atenção para a qualidade de vida com a destinação correta do lixo plástico.
Os primeiros 20 dias de implantação do projeto na calha do Purus apresentou resultado positivo, segundo Agenor, com uma grande aceitação pela população, pois todo plástico coletado está sendo comprado ao preço de R$ 0,10 o quilo, por comerciantes credenciados pelo Ibama. Todo plástico coletado está sendo armazenado em sacos com capacidade para três metros cúbicos e será transportado para Manaus, monitorado por técnicos do Ibama até à empresa recicladora
Reprodução de mosquitos gera doenças
A calha do Purus tem uma história de febres que ainda hoje repercute nas estatísticas de saúde pública. Para as prefeituras da região, o projeto vem em boa hora, pois os municípios não têm lixeiras e o plástico prolifera, tornando-se um ambiente ideal para a reprodução de mosquitos que trazem, em seu rastro malária, dengue e a proliferação de carapanã.
O prefeito de Tapauá, Almino Albuquerque, disse que o apoio de prefeituras ao projeto "O plástico no limite" trará melhoria na qualidade de vida da população do Purus, que busca visibilidade para os eventos e potencialidades para o ecoturismo, apostando na Reserva Biológica do Abufari como chamariz para divulgação do potencial natural da região.
O tecnólogo Raimundo Pinto, especialista em plástico e representante da empresa recicladora, destaca a importância da parceria com o Ibama num projeto com ênfase na educação ambiental, visando chamar a atenção para os danos causados pelo plástico doméstico, considerado um dos maiores problemas em dimensão planetária e vê na mitigação desse problema a geração de emprego e renda. Segundo o especialista, esta atividade de coleta gera no mínimo 15 empregos e renda de até dois salários mínimos e meio, por cidade.
Os dois tipos de plástico mais usados são o poliestireno e o pvc - poliacilatodevinila, que reciclados vão se transformar em caixas, tubos e conexões para construção civil, telhas plásticas, baldes, bacias, prendedores de roupa, sacos de lixo, vários tipos de calçados e lonas, dentre outros. Raimundo esclarece ainda que o produto reciclado não volta para embalar produtos alimentícios. Estima-se que o Amazonas produz por ano 2,1 mil toneladas de plástico doméstico, sendo 70 quilos por pessoa ao ano. Esse produto é danoso se jogado na natureza, mas transforma-se em dinheiro se coletado e reaproveitado na reciclagem também, gerando emprego e renda com a fabricação de novos produtos.
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