Entrevistas
:: José Carlos Carvalho
Ministro do Meio Ambiente

Por: Deborah Berlinck
Enviada especial do jornal O Globo a Joanesburgo, 3 de setembro de 2002

‘O sistema da ONU está superado’

Após sete noites mal dormidas devido às negociações da Rio+10, o ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, não esconde a frustração. Para ele, os resultados obtidos até agora são decepcionantes. Ele defende uma mudança no sistema de negociações da ONU, frisando que o modelo atual já não funciona.

O Brasil não obteve metas para energia renovável. Como o senhor vê a situação?
JOSÉ CARLOS CARVALHO: Negociamos até o último minuto. Não é crível falar em desenvolvimento sustentável, convocar uma cúpula para isso e não adotar medidas concretas na área de energia. Um dos principais problemas ambientais hoje é o aquecimento da Terra, que está relacionado ao uso dos combustíveis fósseis, o que indica a urgente necessidade de um esforço global para estabelecer uma matriz energética mais limpa. Diante disso, lamento que a cúpula não tenha adotado uma meta específica, embora eu reconheça que a inclusão do tema no texto não deixa de ser positivo.

O senhor está decepcionado?
CARVALHO: Gostaria que pudéssemos sair daqui com uma meta. Essa cúpula foi convocada para estabelecer um plano para a Agenda 21. Um plano de implementação sem metas é só um plano, e um plano de metas sem meios de implementação é uma ficção. Nós ficamos um bom tempo gastando energia, não para avançar, mas para evitar retrocessos.

Como o senhor avalia a Rio+10 até agora?
CARVALHO: Muito aquém do desejável.

Em que pontos?
CARVALHO: Nosso sentimento era de que esta conferência decidiria um plano de implementação da Agenda 21 e dos acordos do Rio. Quando se fala em plano, fala-se em ter objetivos, metas mensuráveis e um horizonte de execução. E isso não está acontecendo.

Não se avançou em nada?
CARVALHO: Estabeleceram-se metas no caso da biodiversidade, o que é importante. Mas na realidade estamos comemorando como avanço o não-retrocesso. Se não saírem metas dessa conferência, ela terá fracassado.

Qual a sua opinião sobre o atual modelo de grandes conferências da ONU?
CARVALHO: Não querer discutir metas para saneamento e água numa conferência que tem como foco o combate à pobreza é surrealista. A Humanidade tornou-se um conceito abstrato. É dolorido ver isso.

Está decepcionado com a diplomacia?
CARVALHO: Os diplomatas brasileiros são extraordinários, mas de certa forma a diplomacia existe para manter o status quo . É preciso criar novos mecanismos de negociação e cooperação e também novos mecanismos políticos para a governança mundial. Esse modelo, criado após a Segunda Guerra, está se esgotando. As últimas conferências da ONU confirmam isso. O sistema da ONU está superado. Não é suficiente para promover mudanças. Ao contrário, mantém a inércia.

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