:: Bjorn Lomborg Cientista dinamarquês, autor do livro "O Ambientalista Cético"
Por: Rodrigo Amaral - BBC, 10 de setembro de 2002
O melhor caminho para preservar o ambiente nos países em desenvolvimento é ficar rico, segundo um dos mais polêmicos cientistas da atualidade.
O dinamarquês Bjorn Lomborg, autor do livro "O Ambientalista Cético", afirma que a preservação da natureza, hoje, é uma preocupação das sociedades que já deixaram problemas como a pobreza e a fome para trás - enquanto países como o Brasil ainda precisam ultrapassar esses obstáculos.
"É preciso entender que, quando organizações ambientalistas do Primeiro Mundo apontam problemas no ambiente, isso pode ser correto em seus países, mas não necessariamente nos países em desenvolvimento", afirma Lomborg.
Com base nesse raciocínio, ele defende que os países ricos financiem a preservação de áreas como a floresta amazônica. Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Bjorn Lomborg à BBC Brasil:
BBC Brasil - Qual deve ser a prioridade de países em desenvolvimento como o Brasil no que diz respeito a uma política pública para o ambiente?
Bjorn Lomborg - Não acho que é meu trabalho dizer quais devem ser as prioridades, pois essa é uma decisão democrática. O que eu tento destacar é que países em desenvolvimento geralmente têm problemas muito mais óbvios do que os ambientais. Eles enfrentam crises nas áreas de saúde e de educação, falta de água e saneamento e bastante pobreza.
Se a idéia é tratar as questões cruciais relativas ao ambiente, elas seriam a ausência de água potável e saneamento, por um lado, e a falta de ar puro, por causa da poluição. Em muitos países em desenvolvimento também há a necessidade de fornecer recursos para que as pessoas não tenham que usar muitos combustíveis poluentes, especialmente madeira, queimada nas cozinhas das casas. Isso provavelmente causa mais mortes do que a poluição do ar nas cidades mais poluídas do mundo.
BBC Brasil - No caso da falta de água potável, medidas para resolver esse problema não estão geralmente no topo da lista de prioridades de grupos ambientalistas, quando fazem campanhas para pressionar países em desenvolvimento. Mas é difícil simplesmente virar as costas para esses grupos.
Lomborg - Eu entendo que isso seja difícil, mas também acho importante que o Terceiro Mundo fale por si mesmo e não siga necessariamente o que pessoas no Primeiro Mundo pensam que é a melhor maneira de lidar com os problemas. Não há dúvida de que, a longo prazo, se tivermos os recursos, há várias coisas que gostaríamos de fazer da maneira correta nos países em desenvolvimento. Poderíamos nos preocupar mais com o uso de pesticidas e com os efeitos a longo prazo do aquecimento global, por exemplo.
Porém o problema é que há questões mais urgentes. Os países em desenvolvimento precisam deixar claro que, enquanto muitos dos seus cidadãos não souberem se vão ter uma próxima refeição, eles não vão se importar tanto com o que vai acontecer com o ambiente em 50 ou cem anos. Isso não é porque são más pessoas, mas porque estão numa situação ruim. É preciso entender que, quando organizações ambientalistas do Primeiro Mundo apontam problemas no ambiente, isso pode ser correto em seus países, mas não necessariamente nos países em desenvolvimento.
BBC Brasil - Esse tipo de argumento poderia justificar um aumento da exploração econômica da Amazônia?
Lomborg - Essa é uma questão local a ser decidida pelo povo brasileiro. Eu estou apenas destacando que a preocupação com as florestas tropicais é muito mais do Primeiro Mundo do que do Terceiro Mundo. A Europa devastou de 60% a 80% de suas florestas nos últimos mil anos e ficou rica nesse período. Eu acho um tanto hipócrita que digamos aos países do Terceiro Mundo que eles não podem fazer o mesmo.
Isso não significa, necessariamente, que o Terceiro Mundo deve cometer os mesmos erros que nós cometemos. Nós lamentamos que tenhamos devastado tanto as nossas florestas, mas na época parecia ser uma boa idéia. Levando em consideração que essa é uma preocupação dos países industrializados, o mínimo que deveríamos fazer seria pagar aos países em desenvolvimento para fazer algo que nós desejamos - como, por exemplo, preservar as florestas tropicais. O Brasil deveria dizer que vai manter intactas vastas áreas da floresta amazônica, mas, por outro lado, deveria também pedir o apoio do Primeiro Mundo para fazer isso.
BBC Brasil - O sr. acha que um dia vai surgir um consenso sobre esse financiamento da preservação do ambiente nos países mais pobres?
Lomborg - Eu espero que sim. Não sei se isso vai ocorrer tão cedo, mas acho que há um movimento nesse sentido. A solução a longo prazo para termos um ambiente saudável na Terra é que os países em desenvolvimento fiquem tão ricos quanto nós somos.
BBC Brasil - Há o risco de que isso não ocorra, e o ambiente continue a se degradar?
Lomborg - Há certamente algum risco. É improvável que testemunhemos os demais fatores econômicos entrarem em declínio. Com o passar das décadas, quase todo o mundo registrou um aumento dramático da atividade econômica, e isso também significou que bilhões de pessoas foram tiradas da pobreza. Nesse sentido, as coisas estão funcionando - embora possamos dizer que o processo esteja lento demais.
Quando se atinge um certo patamar de riqueza, é improvável que não se queira fazer algo pelo bem do ambiente. A longo prazo, vamos ser capazes de lidar com isso. Muitos dos países em desenvolvimento mais ricos já estão fazendo diferente, por exemplo limpando seu ar. Se verificarmos a poluição atmosférica em Santiago, no Chile, ou na Cidade do México, podemos perceber que houve um declínio na última década, simplesmente porque esses países, ao se tornarem suficientemente ricos, começaram a impor restrições. Eles estão afirmando que não querem esse imenso problema da poluição e pagam para não tê-lo.
BBC Brasil - O sr. tem acusados grupos ambientalistas de exagerar na divulgação de informações sobre os danos à natureza. No Brasil, é comum ver notícias sobre áreas do tamanho da Bélgica sendo destruídas na Amazônia. Há também exagero nesse tipo de informação divulgada no Brasil?
Bjorn Lomborg - Há exageros com freqüência. Quando você lê algo no jornal é sempre, até certo ponto, exagerado, porque isso vende mais jornais ou aumenta a audiência. Isso não significa que não é verdade, mas sim que, freqüentemente, as pessoas não se esforçam o suficiente para ver quais são as estatísticas.
Quando falamos das estatísticas do Inpe sobre a porcentagem de floresta que ainda existe na região da Amazônia, a resposta é que 86% ainda está intacta. Isso significa que já foi derrubada 14%. Obviamente, gostaríamos de viver num mundo onde não tivéssemos nem isso, e é provável que mais de 14% sejam cortados no Brasil antes de o país se enriquecer o suficiente a ponto de não precisar cortar mais.
Mas precisamos tentar entender o quanto esse problema é preocupante de verdade. Só assim é possível tomar decisões corretas sobre o quanto se deve investir nessa área, em vez de enfrentar outros problemas que também existem no Brasil.
BBC Brasil - O que o novo governo do Brasil pode fazer para que esse outro lado da história também chegue aos ouvidos das pessoas?
Lomborg - Eu acredito que a ciência e os dados estatísticos são a forma de aumentar o debate público sobre o problema. Eu não acho que alguém deve vir a público para apresentar algum tipo de "outra história" ou dizer simplesmente que está tudo bem. Só é necessário dar às pessoas os fatos. Eles têm a tendência de vencer os debates.
Não é surpreendente que sempre vejamos mensagens que dizem que as coisas estão ficando cada vez piores. Se você realmente pensar bem, para provar a devastação é só filmar os locais onde a floresta já foi derrubada. Freqüentemente, vemos organizações cujo principal objetivo ao divulgar esses dados é assegurar a si mesmas que elas estão trabalhando numa área importante.
BBC Brasil - Se o sr. fosse brasileiro, estaria pessimista ou otimista quanto à possibilidade de conciliar crescimento econômico com a proteção do ambiente?
Lomborg - Não sou muito familiarizado com a situação no Brasil, mas em geral há uma tensão entre a economia e a preservação do ambiente, que custa dinheiro. Há uma tentação de explorar a riqueza fácil agora e pagar por isso mais tarde. Foi o que fizemos no mundo industrializado, e agora estamos bastante preocupados com a questão ambiental.
Então, quando se atinge um patamar de riqueza, não há dúvidas de que aumenta a preocupação com o ambiente. Aumenta o gasto com a defesa da natureza e com a melhoria das condições ambientais. A longo prazo, sim, há bons motivos para se pensar que o Brasil vai ficar mais rico e vai atingir um ponto em que a população vai se importar de verdade com o ambiente.
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