Entrevistas
:: Lester Brown
Economista americano

Por: RODRIGO AMARAL
da BBC, 11 de setembro de 2002

Muita gente acredita que países como o Brasil precisam fazer uma escolha entre o desenvolvimento da economia e a preservação do ambiente.

Este não é o caso, porém, do economista Lester R. Brown, um dos mais influentes ambientalistas da atualidade, para quem a conservação da natureza é uma medida que faz muito sentido do ponto de vista econômico.

Ele rejeita a idéia de que os países em desenvolvimento devem seguir o mesmo caminho dos países industrializados, que devastaram boa parte de seus recursos naturais no caminho da prosperidade.

"A economia depende do ambiente. Se não há ambiente, se tudo está destruído, não há economia", afirma Brown, que fundou uma das mais ruidosas ONGs ambientalistas em ação na atualidade - o Worldwatch Institute - e o instituto de pesquisas Earth Policy, do qual é presidente ainda hoje.

"Nós continuamos tão dependentes dos sistemas e recursos naturais quanto éramos antes, mesmo vivendo hoje em uma sociedade moderna e tecnologicamente avançada."

Em entrevista à BBC Brasil, Lester R. Brown defendeu a adoção de tecnologias alternativas para promover o desenvolvimento sustentável. Entre elas, a energia eólica, área em que ele prevê que o Brasil se tornará um líder mundial no futuro.

Leia a seguir a entrevista:

BBC Brasil - Como nações em desenvolvimento podem atingir crescimento econômico e, ao mesmo tempo, proteger a natureza?
Lester Brown - A questão mais apropriada seria: como um país como o Brasil pode ter desenvolvimento econômico, se destrói o ambiente? A economia depende do ambiente. Se não há ambiente, se tudo está destruído, não há economia. Nós continuamos tão dependentes dos sistemas e recursos naturais quanto éramos antes, mesmo vivendo hoje em uma sociedade moderna e tecnologicamente avançada. Continuamos dependendo de sistemas e recursos naturais básicos. Se destruirmos esses elementos, colocamos em risco a economia.

BBC Brasil - Na Europa e nos Estados Unidos, há muitos países que exploraram a natureza de seus territórios e hoje são ricos. Muitos argumentam que só agora eles estão preocupados com a preservação. Os países em desenvolvimento não deveriam seguir o mesmo caminho e criar riqueza através da exploração dos recursos naturais?
Brown - A questão é: o que se quer dizer com explorar? Destruir ou gerenciar de um modo sustentável? No litoral da Terra Nova (no Canadá), praticou-se por séculos a pesca intensiva de bacalhau. A pesca sempre foi uma fonte rica não só de alimentos, mas também de empregos e salários. Em 1992, essa área de exploração de pesca entrou em colapso, por causa de um gerenciamento incorreto.

Vinha-se pescando demais e pensou-se que sempre se poderia pescar mais e mais peixes, de modo que os estoques deixaram de existir. Depois, houve uma completa proibição. Todos os barcos foram proibidos de entrar na área, proibidos de pescar, as fábricas de processamento de pescado foram fechadas, 35 mil pessoas perderam o emprego. Os canadenses pensaram que, proibindo completamente a pesca, os estoques de peixe voltariam ao normal na região. Dez anos depois, porém, ela ainda não se recuperou.

Esse é um exemplo de exploração errada do ambiente. Se os canadenses houvessem restringido a pesca a um nível sustentável, essa área de pesca ainda estaria lá, produzindo, e as pessoas ainda teriam seus empregos. De certa forma, isso é um tipo de metáfora, não apenas relativa à economia do Canadá ou do Brasil, mas relativa à economia do mundo. Se nós destruirmos os sistemas de suporte - seja de áreas de pesca, florestas, terras para a agricultura ou pecuária - nós vamos destruir nosso futuro.

BBC Brasil - O sr. conhece algum exemplo positivo de país que tenha explorado o ambiente do ponto de vista econômico com responsabilidade?
Brown - Provavelmente, se você procurar por um país que tem os melhores registros em termos ambientais, seria a Dinamarca. Quando eles perceberam que o aquecimento global era um problema sério, proibiram a construção de usinas elétricas à base de carvão. Eles também investiram pesadamente e deram bons incentivos para o desenvolvimento da energia eólica. Como resultado, hoje conseguem que 16% da energia usada no país venha do aproveitamento dos ventos, e esse é apenas o começo.

Eles também desenvolveram um sistema de transporte para suas cidades que é bastante diferente. Os dinamarqueses não repetiram o que ocorreu em outros centros industriais, que passaram a depender quase exclusivamente de automóveis. Há carros nas cidades, mas também uma boa rede de transportes públicos e eles têm investido pesadamente para fazer com que o sistema de transporte não cause problemas para ciclistas. O resultado é que um terço de todas as pessoas em Copenhague hoje vão de bicicleta para o trabalho. Eles não fazem isso porque precisam, mas porque querem, porque é confortável e conveniente para eles. Esses são exemplos do tipo de coisas que nós devemos fazer.

Podemos produzir energia, por exemplo, sem prejudicar o clima da Terra. Uma das chaves para isso é desenvolver fontes de energia renováveis. Estamos agora começando a ver nos Estados Unidos um rápido crescimento no uso do vento como fonte de energia. Nós também estamos vendo isso no Brasil. Há uma série de usinas de energia eólica que recentemente foram completadas ou estão em construção no Brasil, e que vão transformar o país em um dos líderes mundiais em energia eólica.

Uma vez que você obtém energia eólica barata, você tem a opção de "eletrificar" a água para produzir hidrogênio. Hidrogênio é o combustível que será usado nos motores do futuro - as maiores montadoras de automóveis estão trabalhando nesse sentido. No próximo ano, tanto a Honda quanto a Daimler-Chrysler pretendem entrar no mercado com veículos que usam "células de combustível" (com hidrogênio). Nós estamos olhando para um futuro que pode ser bastante diferente do passado.

BBC Brasil - Essas novas tecnologias têm um preço acessível também para países mais pobres?
Brown - Uma das tecnologias é a bicicleta, e as bicicletas certamente são acessíveis. As turbinas para aproveitamento do vento constituem uma das mais baratas fontes de energia no momento. Muito mais barata do que a energia nuclear e, em alguns casos, o gás natural, além de estar se tornando mais competitiva que o carvão. Se nós incluirmos os custos indiretos da queima de combustíveis fósseis, como os efeitos sobre o clima, como a poluição do ar, então o vento está em uma categoria única. Nós não veríamos mais usinas termoelétricas sendo construídas no mundo. Essas tecnologias não só têm um preço acessível, como em alguns casos são mais baratas.

BBC Brasil - Quais são suas maiores preocupações em relação ao estado da natureza nos países em desenvolvimento, neste momento?
Brown - Minha principal preocupação é a extensão com que vêm sendo destruídos os sistemas naturais, sejam eles áreas de pesca, florestas, terras para a agricultura. Nós temos testemunhado o avanço da erosão, tanto pluvial quanto eólica, em áreas agrícolas por causa do cultivo excessivo. Na China, por exemplo, há uma imensa nuvem de poeira começando a se formar, e desertos estão se expandindo rapidamente, em um ritmo nunca antes visto no mundo. Eu não acho que os líderes chineses já tenham percebido a magnitude do problema que está surgindo ali.

Estou preocupado também com a destruição da Amazônia no Brasil, porque acho que ela é uma fonte extraordinária de recursos e de biodiversidade. É algo muito valioso para o Brasil, se o país souber preservá-la. Isso porque, quando eu vejo as queimadas de florestas na Amazônia e a perda permanente e irreversível de material genético que só existe naquela área, isso me faz lembrar do incêndio da biblioteca de Alexandria, mais de 2 mil anos atrás. Era uma biblioteca extraordinária, como nenhuma outra no mundo, e foi queimada.

O que o Brasil tem é uma grande biblioteca biológica, com uma variedade de DNA que não existe em nenhum outro lugar no mundo, e está literalmente queimando isso, sem perceber quanto ela é valiosa.

BBC Brasil - Algumas estatísticas indicam que cerca de 14% da Amazônia já foi destruída. Isso é realmente preocupante, se pensarmos que 86% dela ainda resiste?
Brown - Cientistas brasileiros fizeram uma pesquisa, publicada na revista Science, que é um clássico levantamento dos efeitos do desflorestamento no ciclo das águas. O que eles fizeram foi analisar como a água é transportada para o interior do país pela floresta amazônica. À medida que a umidade do ar vem do Oceano Atlântico e chove numa área preservada da Amazônia, cerca de 20% da água escoa de volta para o mar, enquanto outros cerca de 75% evaporam e são carregados para o interior, onde volta a chover e continua o ciclo de reciclagem. Dessa forma, a água é carregada até os Andes.

No entanto, se houver desmatamento, e se a mata for substituída por plantações ou pastagens, logo na primeira chuva, quando a água entrar em contato com o terreno limpo, 75% dela segue de volta para o mar, e apenas 25% continua no processo de reciclagem. À medida que avança a devastação da Amazônia, a capacidade da floresta de reciclar a chuva fica enfraquecida. Isso pode começar a afetar a agricultura no sul do Brasil e no serrado, onde também anda ocorrendo o desmatamento. Eu não acho que a maior parte dos líderes brasileiros entende o efeito do desflorestamento na Amazônia no ciclo das águas, no clima e na agricultura do sul do Brasil.

BBC Brasil - Há grupos ambientalistas muito ativos no Brasil, mas também há uma parte da sociedade que não vê com bons olhos a pressão de grupos internacionais para proteger o ambiente. Como essa desconfiança pode ser superada?
Brown - Se eu fosse um nacionalista no Brasil, eu iria querer preservar o ambiente, porque é um recurso inigualável. Isso também seria verdade, particularmente, se eu fosse um conservador no Brasil, porque os conservadores, por definição, defendem a conservação, em vez da destruição. A única resposta para essa pergunta é que o Brasil deve analisar com cuidado a situação e decidir o que é do seu interesse.

Eu acho que essa análise meticulosa vai resultar na conclusão de que a Amazônia precisa ser salva. Não é só um dos mais valiosos recursos no Brasil, mas de todo o mundo. Não há nenhum outro ecossistema que tenha a variedade genética, a biodiversidade, que a Amazônia tem. E agora sabemos que isso está se tornando cada vez mais valioso por inúmeras razões - desde a fabricação de novas drogas e remédios até o uso do DNA na criação de novas variedades de plantas.

BBC Brasil - O senhor acha que os países mais ricos estão fazendo sua parte no que se refere à preservação do ambiente em países mais pobres?
Brown - Estou muito decepcionado com que os países mais desenvolvidos estão fazendo, tanto no que diz respeito ao exemplo que eles representam quanto à ajuda que eles estão dando, ou melhor, a ausência dela. Nos Estados Unidos, que é o líder mundial em pesquisas sobre o ambiente, os líderes se recusam a fazer algo significativo no que se refere às mudanças climáticas. Isso não é só decepcionante para mim, mas para a maioria dos americanos.

Nós vemos a mesma situação no desenvolvimento de programas internacionais de planejamento familiar. Na conferência do Cairo, em 1994, foi alcançado um acordo para financiar o planejamento familiar, para eliminar as desigualdades entre todos os casais do mundo, para que todos tivessem acesso a serviços nesse sentido. Os países mais desenvolvidos concordaram em financiar parte do projeto, enquanto os países em desenvolvimento pagariam a maior parte dele. Mas os países mais desenvolvidos não cumpriram a promessa.

Outra área em que os países mais ricos poderiam assumir uma posição de mais liderança é no desenvolvimento de fontes de energia renováveis, como a energia eólica e a energia geotérmica. Essas são áreas que os países mais ricos deveriam estar fazendo imensos esforços para desenvolver não só domesticamente, mas em todo o mundo, e eles não estão fazendo um bom trabalho.

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