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:: ONGs empregam 39,5 milhões de pessoas
Gazeta Mercantil, 03 de outubro de 2002

Por: Angélica Vilela

São Paulo - No Brasil, são 1,2 milhão atuando em mais de 250 mil organizações, que movimentam cerca de R$ 12 bilhões anuais. O terceiro setor faz mais do que buscar atender às necessidades da sociedade que o governo e a iniciativa privada não conseguem ou deixam de lado. Ele é uma força econômica que gera, cada vez mais, renda e emprego.

Segundo pesquisa do The Johns Hopkins Center for Civil Society Studies - realizada em 35 países, incluindo o Brasil - o setor emprega 39,5 milhões de pessoas ou cerca de 6,8% da população em idade de trabalhar não ligada à agricultura. As organizações sem fins lucrativos já empregam 46% das vagas oferecidas pelo setor público no mundo. No Brasil, segundo o Instituto de Estudos da Religião (ISER), o setor emprega 1,2 milhão de pessoas.

"O terceiro setor é um grande empregador, muito maior do que as pessoas imaginavam", diz Lester Salamon, catedrático da Universidade Johns Hopkins, especialista em terceiro setor - formado pelas organizações privadas sem fins lucrativos que geram bens e serviços voltados à promoção sócio-econômica e cultural. Salamon veio ao Brasil para participar do Seminário Internacional "Perspectivas para o Terceiro Setor no Século XXI", promovido pelo Senac-SP em parceria com o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo.

Os gastos do terceiro setor atingem US$ 1,33 trilhão por ano. Juntas, as organizações sem fins lucrativos seriam a sexta nação mais rica do mundo. Se comparado a setores da economia mundial, as organizações não governamentais (ONGs) empregam mais do que as indústrias têxtil (4 milhões de empregados), alimentar (4 milhões), de utilidades (8 milhões) e de transportes (33milhões).

Os países desenvolvidos sustentam a liderança de empregos do terceiro setor. Na Holanda, cerca de 18,7% das pessoas em idade de trabalhar não ligada à agricultura trabalham em organizações sem fins lucrativos. No Brasil, eles são 2,5%. São mais de 250 mil ONGs, que movimentam aproximadamente R$ 12 bilhões anuais, segundo dados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A receita vem da prestação de serviços, comércio de produtos e arrecadação de doações.

O valor corresponde a 1,2% do PIB brasileiro. Em 1995, eram 15 milhões de doadores pessoas físicas no País, segundo a Universidade Johns Hopkins. Em 1998, esse índice triplicou para 44,2 milhões de pessoas, ou 50% da população adulta brasileira, de acordo com números do Comunidade Solidária.

Além de grande, o setor é ágil. "O terceiro setor está crescendo três vezes mais rápido do que o privado", afirma Salamon. No início dos anos 90, o número de empregos criados pelo terceiro setor cresceu três vezes mais do que o criado pela economia como um todo em oito países pesquisados. Enquanto o número de vagas do primeiro cresceu 24,4% de 1990 a 1995, o do segundo foi de apenas de 8,1%. "A sua base ainda é pequena para a absorver toda a massa de empregados que todos os dias o setor privado demite, mas está cumprindo seu papel", diz o catedrático. Ele cita o exemplo dos desempregados das empresas pontocom. Após o "estouro da bolha", muitos fizeram um balanço entre o retorno financeiro e a vida pessoal e boa parte deles está se direcionando ao terceiro setor. Do total de trabalhadores empregados pelo setor, 57% são assalariados. A média de empregados não ligados à agricultura é 4,4% assalariados e 2,4% voluntários. No Brasil, são 2,2% assalariados e 0,3% voluntários. A tendência é aumentar o número de trabalhadores nestas organizações, o que não quer dizer que vá diminuir o de voluntários. "Atuar no setor é um ato social, e não individual. Quanto mais funcionários pagos, mais voluntários", afirma Salamon. "Eles precisam perceber uma estrutura mínima para participar."

As funções ligadas ao serviço - educação, serviços sociais, saúde e desenvolvimento - absorvem 64% dos empregados de terceiro setor. Já as funções expressivas - cultura, advocacia e ambiente - representam 32% do total. O restante, 4%, está disperso em outras funções. Na América Latina, as ligadas a serviços representam 72% do total e as expressivas 24%.

Aqui, a maior fonte de receita são as mensalidades e taxas pagas por serviços ou produtos, com 74% do total. As contribuições do setor público somam 15% e a filantropia 11%. Nos EUA, as contribuições são 57%, a participação do setor público 31% e filantropia 13%. Os governos mantém, em média, 35% das ONGs. Na Europa Ocidental, onde elas são maiores e mais ativas, a média é maior. Na América Latina, a participação do governo é bem menor (15%), pois o terceiro setor ainda não é tão atuante e há a tradição de dependência do Estado.

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