:: Negócios e gestão ambiental - por Miguel Krigsner
Por: Miguel Krigsner é presidente de O Boticário e idealizador da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, que acaba de lançar em parceria com a Fundação Avina o livro "Responsabilidade Social e Empresarial: o Meio Ambiente Faz Parte do Nosso Negócio".
Fonte: Popular (PR), 19 de julho de 2002
Muitas vezes, descobre-se que aquilo que se despreza vale mais do que aquilo que se exalta. Ao verbalizar tal pensamento no século 1, certamente o ensaísta latino Fedro não estava preocupado em analisar a relação entre o ser humano e a natureza. Essa frase, no entanto, se encaixa perfeitamente naquilo que se discute com fervor nesse instante em todo o planeta. Nunca como em nenhuma outra época o homem tentou reverter o quadro de degradação ecológica que se encontra a Terra. Tal descaso vitimou a atmosfera, comprometeu a diversidade e produziu pobreza, dizem acreditar os especialistas. Pela primeira vez na história, os estudiosos relacionaram os problemas sociais e ambientais. A crise global escancara a necessidade real de se garimpar as soluções que viabilizem e encaminhem a construção de uma sociedade mais justa. A devastação dos índices ambientais ou econômicos inflou o caráter emergencial de se repensar e implementar um novo modelo. Trata-se de um olhar diferenciado nos processos para gerenciar o mundo. Esse despertar passa pelo conceito de responsabilidade social.
Pessoas, empresas e a sociedade civil organizada tentam consolidar maneiras próprias de fazer o bem. Qualquer ação, por menor que seja, enriquece o universo que se busca através do exercício da cidadania. A boa notícia brota dentro dos escritórios, pois as próprias organizações assumem o comando dessa transformação. Esse movimento em torno da solidariedade reflete aquilo que costuma pregar a pesquisadora brasileira Deborah Leipziger, diretora da ONG Social Accountability International: "O que hoje é opcional um dia será obrigação." As corporações americanas e européias já apresentam seu negócio aliado à missão econômica, social e ambiental num mesmo pacote. Nesses dois centros, as últimas estatísticas garantem que os investimentos em projetos do terceiro setor crescem numa média anual de 30%. Em alguns casos, o nível de gestão alcançou a sofisticação em toda a cadeia produtiva. Isso significa que clientes e acionistas atuam sob o guarda-chuva de uma filosofia única.
Enquanto americanos e europeus desfrutam dos benefícios em adotar a responsabilidade social como fator estratégico para o sucesso dos negócios, o movimento mostra-se incipiente no Brasil. No entanto, há iniciativas valorosas por onde quer que se olhe. E do ponto de vista prático, mensura-se as medidas com facilidade, principalmente quando as ações focam o meio ambiente. Os empresários tornaram-se pró-ativos, embalados principalmente pela asfixia pela qual passa o planeta, e por uma certa pressão da opinião pública. Afinal de contas, não há mais como suportar que as 6 mil toneladas de gás carbônico permaneçam diariamente no ar, produzindo o efeito estufa e o danoso aumento da temperatura terrestre. Muito menos que o desmatamento destrua as florestas e sepulte milhares de espécies animal e vegetal. O quadro caótico suscitou uma pequena revolução na gestão ambiental brasileira. Ao importar para cá os "cases" de sucesso, constatou-se que o desenvolvimento estruturado numa política socialmente responsável desperta o bem-estar das pessoas.
Esse toque no coração das organizações e de seus executivos é prova evidente de que os negócios vão além da produção. Hoje em dia, cerca de 300 empresas brasileiras ou multinacionais já possuem a certificação ambiental ISO 14001 - o conjunto de normas internacionais que estabelece requisitos para a conservação ambiental no desenvolvimento das atividades de uma empresa. Outras centenas delas buscam esse selo de qualidade. Dados indicam que cresce no país a procura pelo certificado. Porém, para a manutenção dele, exige-se uma auditoria na qual se verifica o cumprimento da legislação, procedimento padrão e planos de ação para eliminar ou diminuir os impactos ambientais, além da exigência do pessoal devidamente treinado e qualificado. É justamente nesse instante que se percebe a consciência cidadã que se espalha no chão das fábricas. E todos saem vencedores.
A responsabilidade ambiental, assim, transformou-se num compromisso corporativo com a comunidade. Dentro das organizações, as políticas de recursos humanos, engenharia, qualidade/suprimentos e segurança, por exemplo, funcionam diante de um único conjunto de metas. Desde a escolha da matéria-prima até o destino final dos resíduos líquidos, sólidos e gasosos, calcula-se o equilíbrio entre o empreendimento rentável mediante uma gestão ambiental adequada. Nessa teia, onde cada setor necessita de garantir a melhora contínua, procura-se identificar, incentivar e contribuir para que os fornecedores atuem de forma responsável em relação ao meio ambiente. São atitudes que administram os efeitos colaterais dos agentes poluidores, previnem as tragédias ambientais, promovem a qualidade de vida e saúde dos funcionários e da população, divulgam uma boa imagem no mercado, e, conseqüentemente, propiciam mais lucros, pois se reduzem gastos e custos operacionais. Trata-se de um poderoso instrumento na solução dos problemas sociais do país.
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