:: O dano que só faz crescer - por Regina Scharf
Por: Regina Scharf, 27 de julho de 2002
Todos que lutam pela sustentabilidade do planeta deveriam ler Ibsen. Em 1882, o dramaturgo norueguês escreveu Um Inimigo do Povo, libelo anarquista que narra as desventuras do médico de um balneário turístico que denuncia a contaminação das águas da cidade pelos curtumes da região. Ele descobriu que o tifo e outras doenças estavam se espalhando por causa da poluição e resolve denunciar o problema. Entretanto, enfrenta uma resistência violenta das autoridades e do conjunto da sociedade, que temem os prejuízos que poderiam ter. Não é de hoje, portanto, que se luta, sem sucesso, contra a destruição do nosso patrimônio natural. A realidade que Ibsen observou mudou muito pouco nestes 120 anos. A degradação continua - mas numa escala incomparavelmente maior.
Isso fica evidente para quem compara a saúde do planeta em 1992, na época da Conferência do Rio, com a situação atual. Nestes dez anos:
* A taxa anual de desmatamento da Amazônia tem sido sistematicamente maior do que a registrada em 1992;
* Os Estados Unidos, responsáveis por um quarto das emissões poluentes que estão aumentando a temperatura da Terra, ampliaram em 18% o despejo de carbono na atmosfera e parecem dispostos a manter tais recordes;
* 1,3 bilhão de pessoas vivem com menos de US$ 1 por dia. Ou seja, o número de miseráveis no planeta é idêntico ao de 1992;
* Os países ricos reduziram as doações a países pobres. Nestes dez anos, elas caíram de 0,33% para 0,22% dos produtos internos brutos dos países industrializados;
* O mundo ganhou 800 milhões de indivíduos na década. São quase cinco novos países como o Brasil para alimentar;
Tal quadro reforça o pessimismo quanto à conferência que marcará os dez anos da Eco-92 e que começa no fim de agosto, em Johanesburgo. Quem acompanhou os quatro encontros preparatórios que as Nações Unidas promoveram este ano garante que será difícil obter um documento de consenso de alguma relevância.
Apesar desse clima negativo, as delegações oficiais e não-governamentais precisam deixar em casa suas expectativas sombrias ao embarcar para a África do Sul. Se não houver muita disposição para o combate, a Rio+10 não passará de uma reunião maçante e dispendiosa, em meio à penúria africana. E isto, como sabemos, pode ser desastroso, pois a aceitação da degradação ambiental como um fato consumado pode ser fatal para todos nós.
*Regina Scharf atua no jornalismo ambiental há 17 anos. Trabalhou na Gazeta Mercantil, na Veja e na Radio France Internationale. Também participou de organizações não-governamentais, como o Instituto Socioambiental e o Instituto Akatu.
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