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:: Vamos morrer de sede - por João Rafael Picardi Neto

Por: Hoje em Dia (MG), 30 de julho 2002

O povo brasileiro sempre encontrou até agora um jeito de 'ir levando'. Entra corrupto sai corrupto, fingimos que moramos num país sério, ganhamos o pentacampeonato, substituímos nossos empregos pela economia informal, deixamos de lado nossos direitos de cidadão e vamos levando. Somos atores. Conseguimos transformar nossa imagem, nossa miséria, nossa solidão em samba, pagode, música, batucada, Carnaval.

Quem se calou diante da ditadura militar, pode muito bem se calar diante do modelo neoliberal, desumano, cruel e assassino. Somos hábeis em fazer silêncio. Mas, pela primeira vez na nossa história, além da grande crise econômica, estamos diante de um perigo real e ainda pouco visível para a maioria dos brasileiros: a escassez de água. Nossos filhos ou nossos netos morrerão de sede ou lutando por um fio de água. Sabem disso os políticos, os tecnocratas e todos aquele que acompanham de perto o meio ambiente no Brasil. Seminários, reuniões, debates, viagens para o exterior ou para Brasília, projetos de lei ou mesmo grandes agendas-encontros, no Rio ou em Joahnnesburgo, não impedirão a grande sede de água potável que se aproxima.

Nunca se discutiu tanto o meio ambiente. Nunca se gastou tanto para o mapeamento dos nossos rios. Em época nenhuma da nossa história o meio ambiente ganhou tanto destaque na imprensa. Mas o que realmente tem sido feito?

Nossos filhos morrerão porque nada se faz para salvar o Córrego da Fazenda, em São Brás do Suaçuí, o ribeirão Mata-Cavalos, em Formiga, o córrego das Colheres e milhares de riachos, ribeirões, lagoas e olhos d'água pelo país afora. Não se salva o rio Paraopeba se não salvar o Córrego da Fazenda. Não se salva o São Francisco se não salvar o Paraopeba e todos os seus pequenos afluentes.

Estamos discutindo o meio ambiente de forma errônea, de forma global, sem entrar nos detalhes e procurar as verdadeiras soluções.

Quem pode e deve entrar na luta para evitar a grande escassez de água são os prefeitos, os vereadores, o agricultor de baixa renda, o morador das cidades do interior. De nada serve publicar revistas, anuários, tratados, mapas e estudos sobre os principais cursos d'água, se não tomarmos medidas drásticas para salvar os pequenos 'corguinhos'.

Todos sabem que cerca de 90% da população rural ou da periferia das pequenas cidades utilizam a lenha como combustível. Sempre foi assim e ainda vai continuar sendo, até que um Governo sério descubra que o principal produto a ser subsidiado deveria ser o gás de cozinha. Falar na criação de bosques comunitários chega a ser uma utopia neste país que se preocupa mais com as Bolsas de Valores de Nova Iorque e São Paulo. O que significam para os homens do poder os índices de contaminação de nossas águas? Eles estão mais atentos nos índices que refletem a roleta russa no cassino do capital sem pátria.

Depois de cortar as árvores dos campos e dos cerrados, de forma silenciosa, na calada na noite, as pessoas estão cortando as matas ciliares. Nenhuma mãe vai deixar seus filhos morrerem de fome por não ter um pedaço de pau para cozinhar o seu minguado e aguado feijão. Não existe a preocupação de construir pequenas quedas d'água, com a colocação de sacos de areia e que permitiriam a formação de poços que, que por sua vez possibilitariam o crescimento de uma nova vegetação. Arame farpado, gás subsidiado, educação ambiental, e uma série de pequenas medidas poderiam ser mais eficazes do que tantos discursos e órgãos criados para salvar o nosso meio ambiente.

João Rafael Picardi Neto é jornalista

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