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:: Recados da realidade - Por Washington Novaes

Por: O Estado de São Paulo, 23 de agosto de 2002

Se alguém passasse uma temporada fora da Terra e a ela regressasse nestas vésperas de eleições presidenciais no Brasil, teria a impressão de que estas vão ser realizadas em outro planeta, sem nenhum dos graves problemas concretos com que nos defrontamos. Nossas grandes cidades submergem sob a água a cada estação de chuvas. Os dramas do lixo - inclusive sua contribuição para as inundações - só crescem em todos os lugares. Metade da população não dispõe de redes de esgotos e mesmo onde elas existem 90% dos efluentes são despejados sem tratamento nos cursos d'água. Os transportes caminham para o caos, cada vez mais veículos ocupando o mesmo espaço, as "soluções" (motoqueiros, lotações, etc.) agravando o problema. A irracionalidade do sistema energético leva a população a pagar pelo que não consumiu (o que foi economizado na "crise") e pelo que provavelmente não consumirá (termoelétricas, que ainda agravarão a poluição atmosférica), sem que se dê importância a enormes possibilidades de conservar energia, gastar menos.

Num plano mais nacional, ninguém diz o que vai fazer na Amazônia, se vai concordar com a irracional expansão da fronteira agropecuária para aquela área. Como se conterá a perda rápida da biodiversidade. Que se fará nos cerrados que desaparecem do mapa, na caatinga que se desertifica, nos mangues e na região costeira destruídos pela poluição das águas e por outros fatores. Como serão enfrentados os fortes custos não contabilizados da agropecuária. Quem discutirá os custos ambientais, energéticos, sociais, ambientais dos produtos que exportamos sem cobrar nada dos países importadores.

Tudo o que é concreto parece desfazer-se no ar. Não se fala em levar essas questões para o centro das políticas públicas. Muito menos em implantar a contabilidade desses custos em todos os projetos públicos e privados. Não se discutem padrões de produção e consumo e sua contribuição para a insustentabilidade apontada em tantos relatórios internacionais. Parecemos a séculos ou quilômetros dos grandes temas que centralizarão as atenções do mundo na Rio + 10, a Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável, que se abre segunda-feira em Johannesburgo, na África do Sul.

Talvez devêssemos rezar para que não nos aconteça o que está sucedendo na Alemanha, por exemplo, onde uma catástrofe climática atinge milhões de pessoas e coloca as ditas questões ambientais no centro das discussões da campanha eleitoral que ali se desenrola. As terríveis inundações levam os Verdes, parceiros do atual governo, a mostrar como pode custar caro (serão muitos bilhões de marcos para reparar os prejuízos) não cuidar da contribuição humana para as temidas mudanças climáticas. Propõe-se agora um imposto "ecológico" sobre consumo de energia e transportes, de modo a incentivar a população a usar mais transportes públicos no lugar do automóvel, a isolar melhor, termicamente, suas residências, para consumir menos energia. Demonstra-se que é preciso desimpermeabilizar o solo, para que a água da chuva tenha onde infiltrar-se. Que não se pode continuar ocupando as margens de rios nem transformá-las em pistas para automóveis.

Que é preciso desestimular a concentração urbana, para não formar "ilhas" de calor que atraiam fortes aguaceiros.

Alguma semelhança com os nossos dramas?

Na Ásia, não se sabe o que fazer com a gigantesca nuvem (mais de 25 milhões de quilômetros quadrados de extensão, 3 quilômetros de espessura) de aerossóis sulfurados, poluentes de veículos e indústrias, cinzas de queima de florestas, óxidos de azoto e de carbono, que vai do Paquistão à China, afeta a saúde das pessoas, reduz a produtividade na agricultura - porque a luz solar cai uns 15%, as chuvas diminuem de 20% a 40% em alguns lugares, onde a evaporação fica menor, e aumentam em outras.

Não bastasse, diz o governo chinês que 20% de seu território já está desertificado. Bangladesh está com quase 7 milhões de pessoas desabrigadas por inundações. Morrem centenas na Índia, na Rússia. Nem a civilizada Áustria ou a República Checa escapam. O setor de seguros, apavorado, junta-se aos "ambientalistas", porque a cada ano os prejuízos por "desastres naturais" somam mais algumas dezenas de bilhões de dólares.

Nos Estados Unidos, cientistas do Instituto Econômico de Milbrook (Nova York) dizem que não querem "ser alarmistas", mas estão "alarmados" com a compilação de estudos epidemiológicos que fizeram. Ela mostra que o aumento da temperatura em regiões estudadas multiplica e dissemina patógenos, espalha doenças entre as populações, faz proliferar bactérias, fungos e parasitas de plantas e animais.

A Woods Hole Oceanographic Institution, de Cape Cod, Massachusets, adverte que o derretimentos de geleiras no Ártico por causa das concentrações de dióxido de carbono já está afetando o Atlântico Norte, pode reduzir ou anular o efeito da corrente quente (Gulf Stream), provocar invernos rigorosíssimos no Norte e Nordeste da Europa, no Norte da Ásia. Pode afetar o clima no mundo todo. E o resfriamento daquelas águas já começa a acontecer - não é apenas uma previsão.

Em muitos países, principalmente na Europa, por força dos fatos, essas questões estão sendo levadas para o centro dos debates, não são temas apenas das pessoas que eram apontadas como "catastrofistas", "profetas do apocalipse", como se fossem elas as responsáveis pelo que viam.

Nestas vésperas da Rio + 10, a natureza parece estar mandando recados.

Aflitos. Não será tarefa simples enfrentar os problemas que parecem gerar esses e outros grandes dramas do nosso tempo, quase todos tendo como ponto de partida padrões de produção e consumo insustentáveis, concentração da renda, perda de governabilidade em função do mercado financeiro e da globalização. Todos em escala planetária, exigindo soluções do mesmo porte.

Mas não há opção, até aqui.

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