:: Preparar para as mudanças - por Washington Novaes
Por: O Estado de São Paulo, 20 de setembro de 2002
Anuncia-se que China e Rússia vão homologar o Protocolo de Kyoto e, com isso, permitir a entrada em vigor do acordo que prevê uma redução de 5,2% (sobre os níveis de 1990) na emissão, pelos países industrializados, de gases que agravam o efeito estufa. Talvez o Canadá também mude de posição e homologue, embora o pronunciamento do primeiro-ministro Jean Chrétien em Johannesburg tenha sido ambíguo, deixando dúvidas quanto aos caminhos que submeterá ao Parlamento.
É boa notícia, ainda que não se possam calcular exatamente os números finais, por causa da decisão de Estados Unidos (que desde 1990 já aumentaram em 13% suas emissões) e Austrália de não assinarem. De qualquer maneira, estarão muito distantes das recomendações do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), de redução de 60%, por prudência.
Será pouco, principalmente se se levar em conta que, embora sem certeza científica absoluta, são cada vez mais fortes as evidências de que já estão ocorrendo mudanças - como disse na África do Sul o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri.
A Europa toda referenda hoje essa visão, depois das recentes inundações na República Checa, na Hungria, na Áustria, na Alemanha, com prejuízos de dezenas de bilhões de euros, muitos milhares de desabrigados. Depois do que aconteceu na Índia (15 milhões de atingidos), no Nepal (8 milhões), em Bangladesh (7 milhões), na China (100 milhões de pessoas atingidas), no Vietnã (100 mil desabrigados). Em todos eles, centenas de mortos.
Na cúpula de Johannesburg - convém relembrar -, o primeiro-ministro alemão, Gerard Schroeder, abriu seu discurso afirmando que "mudanças climáticas não são mais um prognóstico, uma previsão; elas já estão acontecendo; e exigem de nós ação imediata". Jacques Chirac, o presidente da França, foi ainda mais dramático: "A Terra e a humanidade estão em perigo. Há sinais de alerta em todos os continentes (...). Somos todos responsáveis (...). Uma nuvem marrom de poluentes ameaça envenenar todo o continente asiático. (...) Não podemos dizer que não sabíamos."
Não podemos mesmo. Há muitos outros indícios. A temperatura na Antártida subiu 2,5 graus centígrados desde 1950, diz a revista Scientific American (agosto de 2002). Desastres "naturais" causaram perdas de US$ 69 bilhões na década de 1960, mais de US$ 500 bilhões na década de 1990 (Estado, 19/8/2002). No Hemisfério Norte, o mais quente verão de todos os tempos aumentou a temperatura e a evaporação no Atlântico (formando nuvens pesadas), deslocou para o sul europeu grande parte dos ciclones, derreteu geleiras nos Alpes, aumentou muito o fluxo de água nos rios.
Se quisermos entrar em território brasileiro, o Centro Experimental do Instituto Agronômico de Campinas registra aumento da temperatura média de 2 graus entre 1890 e 2000. O Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo aponta elevação de mais de 4 milímetros ao ano no nível do mar em Cananéia entre 1955 e 1990 e de 1,1 milímetro ao ano em Santos entre 1944 e 1989.
Diante desse quadro, sugeriu em Johannesburg o presidente do IPCC, Rajenda Pachauri, que todos os países se preparem, sem perder mais tempo; comecem a adaptar-se às mudanças climáticas, inclusive nas regiões tropicais (e no Brasil, afirmou ele - respondendo a uma pergunta do autor destas linhas), porque se avolumam os indícios de que haverá muito mais inundações em algumas áreas, simultaneamente com secas em outras. O abastecimento de água de cidades densamente povoadas "poderá ser afetado". A agricultura sofrerá muitas conseqüências.
Estudos de Hilton S. Pinto, Eduardo Assad, Jurandir Zullo Jr. e Orivaldo Bruni, divulgados há poucas semanas no site www.comciencia.br, mostram que pode haver conseqüências fortes no Brasil, inclusive nas áreas produtoras de café de São Paulo e outros Estados, onde já se observa certo deslocamento dessa cultura mais para o sul, em busca de climas mais frios e de montanhas.
A se confirmarem as previsões de aumento da temperatura e de chuvas feitas pelo IPCC (entre 1,4 e 5,8 graus neste século), poderá ocorrer, no território pauilista e goiano, "drástica redução de áreas com aptidão agroclimática" para essa cultura. Mas não apenas ela. Também poderá ser muito afetada a distribuição da biodiversidade na mata atlântica.
Seria preciso definir com certa urgência políticas públicas adequadas para essas circunstâncias. E aprender com as lições de outros países.
Na Alemanha, por exemplo, não se tem mais dúvida (New Scientist, 24/8/2002) de que "deveríamos trazer os rios de volta ao seu curso original e restabelecer as planícies de inundação hoje ocupadas (mais de 10% dos europeus vivem hoje às margens de rios; na Hungria, um quarto da população).
Diques e outras barreiras, diz a mesma publicação, só têm servido para aumentar o fluxo de água a jusante, aumentar a inundação rio abaixo.
Retificação e canalização de rios - prossegue - só servem para suprimir os meandros, encurtar as distâncias, aumentar a velocidade e o volume das águas. Será preciso fazer nos Rios Danúbio e Elba o que já se começou a fazer no Reno, por decisão dos ministros dos países ribeirinhos há cinco anos: parar de "brigar com o rio"; cessar a ocupação das margens; desocupá-las, se possível; proibir a ocupação de encostas que, impermeabilizadas, também apressam o fluxo de águas de geleiras que se derretem mais e com maior rapidez.
No Japão, além das leis que obrigam cada construção a ter um sistema de retenção provisória das águas da chuva (que não têm como se infiltrar no solo), aprovou-se recentemente, em Tóquio, legislação que obriga cada construção nova a reservar 20% da área para plantio de vegetação (a fim não só de reter água como baixar a temperatura - já que a temperatura média no verão, nessa "ilha de calor" urbana, subiu 3 graus, assim como em Osaka).
Nossos problemas metropolitanos não são muito diferentes. Podemos assimilar as lições. Estarmos preparados nessas áreas, assim como na agricultura.
Basta querermos. E sermos competentes.
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