Seminário
:: Discurso de Fernando Henrique Cardoso no jantar de Estado oferecido ao Presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, e ao Primeiro Ministro da Suécia, Göran Persson

Museu do Açude, Rio de Janeiro(RJ) , 24 de junho de 2002

Gostaria, antes de tudo, de saudar a presença no Rio de Janeiro do Presidente Thabo Mbeki, do Primeiro-Ministro Göran Persson, e deste grupo tão expressivo de personalidades ligadas à questão ambiental. Dou as boas vindas, em especial, ao Vice-Primeiro Ministro do Reino Unido, John Prescott. Por intermédio dele, permito-me cumprimentar os jogadores da Seleção inglesa que tanto valorizaram a vitória do Brasil na sexta-feira.

Quero reiterar a todos a grande satisfação que sinto em recebê-los uma vez mais aqui no Rio de Janeiro que, há 10 anos, foi cenário de um dos mais significativos eventos da agenda multilateral do último século.

Em 1992, dando continuidade ao processo iniciado em Estocolmo 20 anos antes, a comunidade internacional decidiu corajosamente romper com um passado de imobilismo irresponsável e de tolerância com a degradação do meio ambiente.

Decidiu enfrentar os problemas causados por padrões predatórios de produção e consumo.

Decidiu assumir como seu o ponto de vista das gerações futuras.

Delineou-se, então, um amplo consenso internacional em torno do conceito de desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável está enraizado na idéia de que, nas decisões sobre crescimento econômico e sobre o uso dos recursos naturais, há interesses mais amplos do que os de nossa geração ou os de uns poucos países.

Os que se reuniram no Rio em 1992 tinham consciência de que, em certos temas, o interesse nacional seria inseparável do interesse planetário.

Não se tratava de uma discussão sobre restrições à soberania dos Estados.

A questão não era a de que, se quiséssemos ser mais inteligentes, teríamos que ser menos soberanos.

A questão era: porque somos soberanos, precisamos ser mais inteligentes.

Mais inteligentes nas decisões sobre investimentos, na busca de maior eqüidade social, na melhor utilização das inovações tecnológicas e na promoção de transformações institucionais inadiáveis.

Foi um grande salto conceitual.

E se esse salto já não soa tão revolucionário como há dez anos, isso é talvez a melhor medida do êxito da Rio-92.

O que na época se denominou “Espírito do Rio” tornou-se, com o passar dos anos, moeda corrente entre governantes, entre cientistas, acadêmicos e ativistas ambientais.

Mas o avanço em 1992 não foi apenas teórico.

Um dos resultados mais significativos da Conferência do Rio foi a construção de uma parceria global para tornar concreto o conceito de desenvolvimento sustentável.

Outro foi o reconhecimento da necessidade de se prover recursos novos e adicionais para garantir a promoção eficaz da sustentabilidade e a erradicação da pobreza.

Essa parceria global teve, e continua a ter, como um de seus pilares, o princípio das responsabilidades comuns mas diferenciadas dos Estados.

Porque os Estados são desiguais, e não é justo tratá-los como se iguais fossem.

Em 1992, vivíamos as esperanças renovadas pelo fim da Guerra Fria.

Esperava-se que os avanços conceituais pudessem traduzir-se em uma nova era de cooperação.

Passados dez anos, teremos agora, em Joanesburgo, uma valiosa oportunidade para refletir sobre o caminho percorrido desde o Rio.

É uma reflexão imprescindível para que possamos realizar novos avanços em um cenário internacional transformado.

E como se caracteriza esse cenário?

Em primeiro lugar, pelo crescente caráter assimétrico da globalização, que não pode deixar de ter impacto sobre as perspectivas de realização do ideal da sustentabilidade.

O agravamento das desigualdades em escala planetária é inseparável do problema dos padrões insustentáveis de produção e consumo.

Alguns consomem mais do que deveriam, enquanto outros consomem menos do que exige a dignidade humana.

E isso é o que há de mais insustentável no mundo.

Em segundo lugar, o mundo de hoje está marcado pelos efeitos produzidos na agenda internacional a partir do trauma de 11 de setembro.

De certa forma, isso nos fez andar para trás, fazendo com que os temas da cooperação para o desenvolvimento perdessem espaço para as questões militares e de segurança.

Essa é uma tendência preocupante.

Uma tendência que, se viesse a prosperar, agravaria as dificuldades – que já não são poucas – de uma parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Desde a Rio-92, cada país vem realizando esforços internos para dar efeito aos compromissos da Agenda 21.

Apesar desses esforços, o aumento da degradação ambiental e o agravamento da pobreza no mundo mostram que o “Espírito do Rio”, embora continue vivo como um novo paradigma conceitual, está muito aquém de suas promessas.

E é por isso que precisamos de Joanesburgo.

É por isso que precisamos da liderança do Presidente Mbeki, que tem sido essencial para a condução do processo preparatório.

A escolha da África do Sul para sediar a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável não ocorreu por acaso.

A experiência de seu povo na superação de um passado de graves injustiças e na construção de um futuro melhor é, para todos nós, uma fonte de inspiração.

Há também um aspecto simbólico no fato de esta Conferência realizar-se no continente africano, ainda tão afetado pelo problema da pobreza, apesar de sua contribuição decisiva para o processo internacional de acumulação de riqueza que está na origem do que hoje em dia denominamos “globalização”.

Teremos, portanto, em Joanesburgo, grandes tarefas.

Teremos também os meios para enfrentá-las sem rodeios, com sentido de responsabilidade.

Será o momento de fortalecer uma parceria efetivamente global pela promoção do desenvolvimento sustentável, pela erradicação da pobreza e pela construção de um mundo menos assimétrico e mais solidário.

Convido todos os presentes a que me acompanhem em um brinde pelo “Espírito do Rio”: que ele faça uma boa travessia do Atlântico e que se mostre forte e corajoso em Joanesburgo.



Arquivo
:: Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável: de Estocolmo a Joanesburgo, Rio+10 Brasil
:: Discurso de Fernando Henrique Cardoso no jantar de Estado oferecido ao Presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, e ao Primeiro Ministro da Suécia, Göran Persson
:: Discurso de Fernando Henrique Cardoso na cerimônia de passagem simbólica da “tocha” do Brasil para a África do Sul
:: Discurso de Fernando Henrique Cardoso na abertura do Diálogo dos Chefes de Estado e Governo com representantes da sociedade civil
:: Carta dos chefes de estado ao G-8
:: Imagens do Seminário
:: Biografias de alguns dos participantes
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