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:: Por onde passará a utopia? - por Washington Novaes

Por: Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

Fonte: O Estado de São Paulo, 19 de julho de 2002

A recente divulgação de mais um estudo sobre a insustentabilidade dos atuais formatos globais de viver - o Relatório Planeta Vivo 2002, produzido pelo WWF - repõe a discussão sobre a urgência de colocar novas idéias e propostas na pauta de discussão. Embora com números menos contundentes que os do relatório similar de 2000 (publicado conjuntamente com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e abrangendo o consumo de alimentos, energia e recursos naturais), o novo documento assegura que, considerado o atual consumo de grãos, peixes e crustáceos, carne e derivados, água e energia, já estamos 20% além da capacidade planetária de suporte e reposição.

Para atender hoje às necessidades humanas estão sendo utilizados 13,7 bilhões de hectares, quando a disponibilidade de espaço produtivo de terra e marinho é de 11,4 bilhões de hectares. O uso médio por pessoa é hoje de 2,3 hectares, quando a disponibilidade sustentável estaria em 1,9 hectare por pessoa.

O Brasil está na média mundial, 2,38 hectares por habitante, mas acima da disponibilidade média global. A maioria da África e da Ásia está abaixo, com 1,4 hectare por pessoa, enquanto nos Estados Unidos essa média é de 9,6 hectares e na Europa Ocidental, de 5 hectares por pessoa. Dentro de cada país em desenvolvimento, certamente será possível identificar camadas minoritárias da população muito acima da média de uso e consumo, como haverá camadas majoritárias abaixo, de acordo com os níveis de distribuição da renda. Da mesma forma, no nível global, a população dos países industrializados, que representa 19% da população total do mundo, responderá por bem mais da metade do consumo total (as estatísticas a esse respeito variam).

A partir daí, vários estudiosos traçam hipóteses. E concordam em que, se todos os terráqueos consumirem como norte-americanos ou europeus, seriam necessários os recursos de mais dois (ou três) planetas - como já se comentou neste espaço. Lembrando ainda que, pelos exercícios mais otimistas, a população planetária passará dos atuais 6 bilhões e pouco de pessoas para pelo menos 8,5 bilhões até 2050.

Não se trata de alarmas neomalthusianos. São exercícios simples de aritmética, que sugerem hipóteses e perguntas:

Vai-se perpetuar o atual nível de desigualdade em que, segundo os relatórios do desenvolvimento humano da ONU, apenas três pessoas, juntas, têm ativos equivalentes ao produto bruto anual dos 48 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas? Será possível manter a situação em que pouco mais de 200 pessoas, com ativos superiores a US$ 1 bilhão cada, tenham o equivalente à renda anual de 45% de toda a humanidade (mais de 2,7 bilhões de pessoas)? Que conseqüências políticas e sociais advirão?

Se a hipótese for de redistribuição da renda, mas sem alterar os padrões de consumo atuais, aumentando os níveis dos que estão hoje na linha da pobreza ou abaixo, que conseqüências terá isso na biosfera?

Uma terceira hipótese óbvia apontará, então, para a imprescindibilidade de implantar, ao lado de novos padrões de justiça social (ou até sem eles, pois os limites da biosfera já estão ultrapassados), novos formatos de produção e consumo, capazes de situá-los em níveis compatíveis com a capacidade planetária de reposição.



Esta utopia - qualquer que seja a abrangência humana - evidentemente está ainda muito longe de ser sequer vislumbrada. Até porque a discussão se bifurca de novo, em posições antagônicas:



"Novas tecnologias" serão capazes de gerar esse modelo compatível com a capacidade de suporte e reposição, dizem muitos - mas sem discutir ainda a eventual elevação de padrões de consumo da maioria da população mundial e sem soluções para limites já próximos ou visíveis (mudanças climáticas, desertificação, crise da água, perda da biodiversidade e dos chamados serviços naturais, etc.), e até sem explicitar que tecnologias serão essas; será preciso, em lugar disso, rediscutir a tese hoje majoritária de que o simples "crescimento econômico" terá o condão de resolver as dramáticas questões sociais (desemprego, fome, miséria) e ambientais.

Haverá quem diga que o caminho já foi traçado nas décadas de 1970 e 1980 com as propostas de "desenvolvimento sustentável", tão atraentes e tão difíceis de concretizar. Haverá quem proponha a "sustentabilidade progressiva e ampliada", como menciona a Agenda 21 Brasileira, lançada esta semana.

Até aqui, todas as hipóteses estão por ser provadas. As "novas tecnologias" permanecem num plano teórico e genérico - e distantes das equações sociais.

Os pactos pela sustentabilidade estão por ser construídos - e com que dificuldade, mostra a prática!

O bom senso aponta para a urgência de todo o conhecimento, toda a ciência - principalmente a econômica, tão distante dessa discussão - conferirem prioridade absoluta ao tema. Principalmente à interrogação: crescimento econômico, por si, resolve? Haverá recursos suficientes para isso, principalmente no médio e longo prazos? Se não, como se fará? É uma discussão incômoda. Mas incontornável. Talvez ajude recorrer a pensadores que, ao longo da História, colocaram no centro a ética, a metafísica (há quem proponha o "retorno ao sagrado").

Talvez console lembrar que a ciência moderna mergulha cada vez mais na imensidão do espaço e nos informa sobre a nossa insignificância.





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