:: Ecologia globalizada - por Raymundo Negrão Torres
Por: Gazeta do Povo (PR), 23 de julho de 2002
É difícil imaginar que a Terra - uma brilhante jóia branco-azulada, enlaçada por esgarçados véus de nuvens, a lembrar uma pequenina pérola perdida no denso e negro mar do misterioso infinito" - como poeticamente a descreveu o astronauta Edgar Mitchell, de bordo da Apollo 14 - esteja tão ameaçada pela acelerada deterioração da qualidade de vida de nosso planeta.
Paradoxalmente, foi o avanço tecnológico que, embora tenha dado ao homem, desde o início da Revolução Industrial, extraordinários instrumentos de progresso, deu também partida para a quebra do equilíbrio natural, pela poluição das águas e do ar, cujos efeitos tornam-se cada dia mais visíveis na destruição das espécies e nas ameaças ao clima. Em nome do progresso, florestas foram queimadas, derrubadas ou devastadas, rios e lagos foram envenenados pelos defensivos agrícolas e lançaram-se na atmosfera bilhões de toneladas de gases tóxicos.
Com a morte súbita do marxismo, a ecologia passou a ser a nova ideologia, a nova idéia-força, a alimentar os movimentos de protesto e a ocupar o tempo dos ativistas ociosos. As sociedades mais ricas, esbanjadoras e consumistas, tornaram-se grandes produtoras de lixo e de resíduos industriais altamente poluidores. Mas parecem esquecer que realizaram seu desenvolvimento com práticas que nunca levaram em conta os cuidados com o meio ambiente e agora erguem-se como defensoras acerbas da ecologia e passam a transferir para outros culpas pretéritas e pecados atuais.
O Brasil tornou-se, então, um dos alvos prediletos de uma orquestração internacional que vocaliza interesses não totalmente explicados, açula o exibicionismo de alguns e mostra certa dose de desinformação, logo encampada por grupos nacionais sempre ávidos para explorar nossas contradições internas e praticar um estranho "narcisismo às avessas", mesmo que a serviço de grupos e interesses alienígenas. E começamos a sofrer pressões e a receber pretensas lições de quem não tinha e não tem autoridade moral para as dar.
A revista americana Time, até hoje muito preocupada com o assunto, publicou em sua edição de 18/09/89 (!), um alarmista artigo de capa sobre o "incêndio da Amazônia", sob o ambíguo título de "Brincando com fogo", em que as ameaçadoras palavras finais foram:
... "O povo do resto do mundo, não menos do que os brasileiros, necessita que a Amazônia funcione como um sistema (ecológico), e isto, no fim, é mais importante do que a controvérsia sobre quem é o dono da floresta. A Amazônia pode estender-se pela América do Sul, mas a responsabilidade por sua salvaguarda, bem como a recompensa pelo sucesso da empreitada, pertence a todo mundo."
Soam como uma reedição da teoria americana do Destino Manifesto, escorada na política do "Big Stick" (Fale macio, mas tenha ao lado um bom porrete) que foram, no passado, marcas registradas da diplomacia ianque. Parecem, também, dizer que a garantia da "fábrica de oxigênio e do pulmão do mundo", tal qual a liquidação do entreposto de drogas de Noriega, a deposição de um governo potencialmente hostil, como o de Granada, ou a salvaguarda de fontes de petróleo farto e barato, de que afoitamente Saddam Hussein ameaçou apossar-se, justificam o uso de embargos ou da própria força. Mesmo depois que o terrorismo desafiou a suspirada "Pax americana", dentro do contexto de uma nova ordem mundial globalizada.
As críticas são injustas, principalmente vindas dos Estados Unidos, que lançam no meio ambiente mais poluentes do que qualquer outro país do mundo. Os Estados Unidos, que só passaram a preocupar-se com o problema ecológico nas últimas décadas, são os maiores consumidores de recursos naturais e os que mais os desperdiçam. Com apenas 7% da população do globo, usam 1/4 da energia mundial - embora com a metade do rendimento apresentado pela Alemanha ou pelo Japão - são responsáveis pelo lançamento no meio ambiente de 15% do dióxido de enxofre e 25% do CO2 e são recordistas em produção de lixo. Consumiam em 1997 em seus milhões de automóveis, 459 galões de gasolina por habitante, envenenando a atmosfera, especialmente de suas grandes cidades. E aí entende-se a rejeição ao protocolo de Kioto.
Um panorama energético mundial recente mostra que o carvão é o maior poluente pois, ao ser queimado, joga na atmosfera monóxido de carbono, mercúrio, chumbo e enxofre. O consumo mundial dos maiores poluidores registra: USA - 25,5%, China - 24% e Índia - 7%.
Mas o futuro parece reservar aos países do Primeiro Mundo uma dor de cabeça ecológica ainda maior. Os fantasmas de Chernobyl e de Three Mile Island, reforçados pelo acidente que atingiu a usina japonesa de Mihama, ainda pairam sobre os projetos de um maior desenvolvimento do uso de fontes nucleares, para obter a energia elétrica necessária a satisfazer a insaciável fome das indústrias daqueles países. Ao contrário de nós que utilizamos em larga escala a energia limpa de nossas fontes hidrelétricas, eles têm um grande dilema a ser enfrentado: continuar a atender à crescente demanda com as fontes altamente poluidoras dos combustíveis fósseis (carvão e petróleo) ou prosseguir na disseminação de usinas nucleares, com os inquietantes riscos de acidentes imprevisíveis e da progressiva acumulação de resíduos radioativos. Perto disso, as queimadas na Amazônia e as recentíssimas preocupações dos americanos quanto ao nosso Pantanal serão "café pequeno" e servirão apenas como pretexto para as espalhafatosas campanhas que visam a distrair a atenção de franceses, alemães, belgas, japoneses e americanos para os perigos que rondam suas portas.
*Raymundo Negrão Torres, do Centro de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, é autor de "Nos "porões" da ditadura".
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